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Possidônio Queiroz: um ícone da cultura piauiense

Natural de Oeiras, Possidônio Queiroz registra seu nome na história do Piauí como músico de excelência, admirador da boa literatura e também professor, orador, advogado (rábula).

06/06/2020 09h37Atualizado há 1 mês
Por: Lameck Valentim
Fonte: Liliane Pedrosa/ Meio Norte

Por Liliane Pedrosa

 

Um homem que priorizou a busca de conhecimento

A Escola de Música de Teresina, instituição que vem formando ao longo dos anos tantos profissionais, leva em seu nome a figura ilustre de um piauiense que fez história, Possidônio Nunes de Queiroz. Negro, ele nasceu em 17 de maio de 1904, na cidade de Oeiras e era filho do agricultor Raimundo Nunes de Queiroz e de Francisca Soares de Queiroz. Seu pai era dono de algumas terras, cabeças de gado e propriedades urbanas e, foi assim, com essas posses que tinha o dinheiro para pagar o estudo dos filhos em casa.

Possidônio, desde cedo, já se destacava. Sua curiosidade e vontade de aprender fez dele um homem sempre em busca de conhecimento e adquiriu muito ao longo da sua trajetória de vida. Os primeiros passos para sua formação intelectual foram na escola particular de Dona Quininha Campos, aos 7 anos. Estudou lá até concluir o primário, passando depois a frequentar a escola do Dr. José Epifânio Carvalho. Ele era um aluno exemplar. Seguiu muitos caminhos na vida. Dotado de um grande conhecimento e de inúmeras profissões, que adquiriu através da formação autodidata. Foi advogado (rábula), professor, orador, jornalista, historiador, filósofo, crítico literário, músico, cronista e poeta.

Colaborou com a fundação, em 13 de maio de 1939, de uma escola primária denominada Domingos Afonso Mafrense e também da criação da Diocese de Oeiras, em 1944. E era orador, quase que unânime, na maioria dos eventos e celebrações da cidade. Fez concurso sendo aprovado para o cargo de Advogado Rábula. Em 1972, na criação do Instituto Histórico de Oeiras, o velho Possi (como ficou carinhosamente conhecido) era parte integrante dos sócios fundadores e assumiu a primeira direção no cargo de 1º secretário.

Compositor se destacou na criação de valsas

Sempre se encantava pela música. Tentava desenvolver seus estudos na arte através de uma flauta de ébano de cinco chaves. Um dos seus instrutores de flauta foi João Rêgo, pai da bandolinista oeirense, Petinha Rêgo. Admirava a obra e técnica de Patápio Silva.

Ainda na década de 1930 começou a dar forma a Orquestra Renascença, composta por 13 músicos da cidade. Compôs dentre outras, Olha o flautim, Graça Infantil, Choro-fantasia, Valsa Serenata e Horas de Melancolia.  Autor de notas e partituras de 11 valsas e dois hinos, o flautista é a memória musical da cidade de Oeiras. Muitas de suas valsas foram dedicadas aos filhos e afilhados, além de amigos. Só uma das valsas teve letra e se chamou Pensando em Ti (1941). Possidônio compôs a valsa ‘Graça Infantil’, em homenagem ao filho Francisco.

 

Sabia tudo de português. Ministrava lição para figuras ilustradas, tidas e havidas como filólogos e gramáticos. Tinha a sua marca registrada: a de cultivar a lealdade honesta e não servil e a amizade sincera e desinteressada"

Desembargador Edvaldo Moura

 

Exímio músico e conhecedor profundo da literatura

 O desembargador Edvaldo Moura, conterrâneo e amigo de Possidônio Queiroz, lembra com alegria da sabedoria que lhe era peculiar. Ele conta que o mesmo não era só um exímio músico, mas falava de literatura com a intimidade de quem conhecia a fundo muitos escritores. “Leu a Bíblia, fazendo anotação, três vezes. É quem mais conheceu os nossos escritores: os portugueses. Falava sobre o Eça com a intimidade de irmão, os brasileiros, todos, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Gregório de Matos, Machado de Assis e dos seus contos clássicos, Graça Aranha, que chamava de Aranha sem graça, Humberto de Campos, Higino Cunha e outros”, comentou.

Também relatou que o amigo conhecia, como poucos, os escritores piauienses, como Da Costa e Silva, Nogueira Tapety, José Expedito, Vidal de Freitas, Luiz Lopes Sobrinho, O. G. Rego. Tinha o domínio do português como poucos. ”Sabia tudo de português. Ministrava lição para figuras ilustradas, tidas e havidas como filólogos e gramáticos. Tinha a sua marca registrada: a de cultivar a lealdade honesta e não servil e a amizade sincera e desinteressada. Morreu como um homem vertical, em todos os sentidos. Na música ele teve história destacada. Fui amigo e incondicional admirador do Possidônio Nunes de Queiroz. Se como músico ele mereceu o respeito de todos nós, como intelectual, filólogo e orador, a sua importância transcende os limites do comum. Ele leu todos os clássicos da literatura brasileira e portuguesa e, por isso, falava sobre eles com conhecimento de causa”. Possidônio Queiroz morreu aos 91 anos de idade, em 1º de janeiro de 1996.

 

Possidônio é vital para memória e cultura

 É a internet aproximando as pessoas desse gênio da música piauiense que pode, mais do que nunca, ser ouvido e conhecido pelo seu legado cultural, bem reforça isto o regente da Orquestra Sinfônica de Teresina, Aurélio Melo, que destaca a importância de Possidônio.  “Possidônio Queiroz é um desses nomes (são vários), mas ele representa um desses nomes da  história musical do Piauí. Por isso, que a Escola de Música de Teresina - uma casa que tem o objetivo de educar através da música – traz o seu nome, homenageando um músico lá de Oeiras, autodidata, mais que teve preocupação de aprender música, ler e estudar composições, que fez um trabalho maravilhoso pelas partituras e pelos documentos que ele deixou”, diz Melo, destacando, ainda, sua dedicação e esforço para aprender, mesmo com poucos recursos. “Vale ressaltar, naquela época, sem tanta informação como a gente tem hoje, talvez influenciado pelo cinema, ele já compunha valsas, estilo vienense, que é uma coisa interessante. Um musico lá do interior do Piauí, em um período no qual não havia tanta informação,  já fazia valsas, polcas, estilo de músicas européias. E também não vamos deixar de lembrar seu lado mais romântico, valsas brasileiras, canções religiosas de maneira que o seu nome é de importância vital para a nossa memória e cultura e precisa ser lembrado e ser valorizado. Parabéns ao Jornal Meio Norte por resgatar esse nome que é importante para nós”.

 

Bisneto confessa orgulho em tocar Possidônio

 O bisneto Pedro Henrique Cello lembra que a convivência com o bisavô foi bem curta, mas nem por isso deixou de ser tão intensa, afinal, a partir do legado musical que ele deixou o jovem se sente mais perto a cada dia daquele que é uma referência não só familiar em sua vida. “Minha relação com a música foi a partir dos 9 anos, estudando bateria no qual iniciei em casa, e só aos 16 anos, comecei o aprendizado do violoncelo, na Orquestra Escola. A partir de então, comecei a perceber a importância de meu bisavô no cenário musical, através dos arranjos do Maestro Aurélio Melo”.

Pedro é um dos integrantes da Orquestra Sinfônica de Teresina e já teve o orgulho de ver e participar de apresentação para o público com peças do bisavô sendo tocadas. Emoção que fez do momento único. “Acho que pra mim, desde sempre, Possidônio foi um dos motivos para eu me tornar um músico, pela representatividade dele em nossas vidas, e só quando me tornei integrante da Orquestra Sinfônica de Teresina, que me dei conta de toda a sua história”, relata.

Ele acaba de gravar um vídeo tocando uma peça do avô em comemoração aos seus 116 anos. “Fiz para postar nas redes sociais mesmo. A Orquestra Sinfônica homenageou-o, no dia 17 de maio deste ano, em uma de suas lives, aos domingos, no horário de 11h, tocando a polca Graça Infantil”.

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