Brazi JN Rapidão
Combate ao racismo

‘O alvo do braço da polícia sempre foi a pessoa negra. O negro nasce como suspeito”, diz o coordenador do Grupo Coisa de Nêgo

O combate ao racismo deve acontecer no cotidiano.

13/06/2020 09h52
Por: Lameck Valentim
Fonte: Blog do Lucrécio Arrais/MN

O mundo não é mais o mesmo. Em anos de luta contra o racismo, é fato que algumas conquistas foram concretizadas. Mas ainda falta muito para a negritude poder falar mais alto na busca por direitos. Nos Estados Unidos, por exemplo, o assassinato de George Floyd, morto sufocado em uma abordagem policial, provocou um levante em todo o mundo, em uma voz unificada para o fim da discriminação pela cor da pele. 

 Gilvano Quadros, coordenador de produção artística do Grupo Coisa de Nêgo, que tem um trabalho relevante no Piauí quando mistura arte e consciência racial, este é o estopim de anos de sofrimento acumulados em uma dívida histórica que os brancos não são capazes de pagar. “É um momento muito importante do ponto de vista de um levante mundial em relação ao combate ao racismo. É um momento em que as manifestações acontecem em todo o mundo. Mas será que estão observando o que acontece no Brasil? As manifestações têm a pólvora daquele assassinato nos Estados Unidos, mas aqui temos, todos os dias, principalmente nas periferias, algum negro assassinado ou estraçalhado da mesma maneira”, aponta.

 O coordenador afirma que sofrimento da população negra na mão de policiais é uma realidade também conhecida no Piauí. “Isso está tendo visibilidade agora, mas é algo que acontece rotineiramente. O alvo do braço da polícia sempre foi a pessoa negra. O negro nasce como suspeito. Precisamos orientar os negros a não fazer nada em abordagens policiais, nenhum movimento brusco, mesmo de um susto, pois pode custar a vida”, alerta Gilvano.

O combate ao racismo deve acontecer no cotidiano. Inclusive pelos brancos, que devem corrigir incitações racistas e não ficar calado. No entanto, a voz da comunidade negra é a arma principal na guerra contra a intolerância. “Afinal, todos os dias tem algum negro de todas as idades, vem sendo agredido. O levante é importante porque não cabe só a nós do movimento negro organizado. O racismo é um mal que assola todas as comunidades, é perverso. O protagonismo nessa luta, no entanto, é da pessoa negra”, indica o integrante do Coisa de Nêgo.

 Negritude ameaçada pela pandemia 

 Vidas negras importam e não podem ser silenciadas diante de injustiças, mesmo em um contexto de pandemia. Gilvano Quadros é enfático ao dizer que as maiores vítimas do novo coronavírus tem a pele preta. “Estamos cuidando das pessoas das comunidades quilombolas, de terreiro e periferia, diante das nossas condições. Estamos fazendo monitoramento da covid-19 e do isolamento. O vírus, quando chega em alguém com condições, pode haver a busca por melhores hospitais. Nessas comunidades é mais difícil”, revela.

A pobreza está relacionada à cor da pele. “Por isso estoura essa quantidade de morte, porque ele chegou à periferia. Quem mais é atingido pela pandemia é a pessoa negra sem plano de saúde e sem poder pagar plano particular. O SUS está se esgotando. Há um descaso governamental, principalmente do Governo Federal, com relação a isso”, acrescenta.

 Protagonismo para a juventude negra

 O Movimento Pela Paz na Periferia (MP3) busca dar um futuro melhor para jovens em situação de vulnerabilidade social através da tecnologia e reciclagem. Mas é mais que isso. É sobre dar protagonismo à pessoa de pele preta. “Ele que vai mudar a realidade dele. Ele precisa lutar por melhorias na periferia. Educação, saúde, saneamento básico, combate à violência. Gangues são jovens negros contra jovens negros”, aponta Júnior MP3, coordenador do projeto.

 Nós vivemos num país racista e velado. As pessoas dizem que desconhecem o racismo, mas você vai ao shopping e vê  a branca com a empregada doméstica levando o bebê. As penitenciárias são lotadas de presos negros. Os hospitais só têm médicos brancos. Então isso prova que a educação e a justiça segregam, além do sistema policia. É tudo em benefício do branco”, acrescenta.

 A juventude da periferia tem um futuro incerto. “Nós sabemos que essas pessoas nascem nas piores condições e sem acesso aos direitos fundamentais. É um parto sem pré-Natal. É a criança sem medicamento ou alimentação de qualidade. A mãe não tem renda, o pai também não. Bota numa creche, quando tem, ou fica na rua. As escolas não funcionam direito. Então é um grande ciclo a ser combatido”, finaliza.

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