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Opinião

Cinco evidências históricas de que a humanidade não vai melhorar após o fim da pandemia

Fique o leitor à vontade para acreditar, descrer, concordar ou discordar.

10/07/2020 09h58
Por: Lameck Valentim
Fonte: Revista Bula

Por Sebastião de Assis Neto

 

Elaborar uma lista de evidências sobre alguma consequência não é fácil. E há uma série de motivos para essa dificuldade. Primeiro vem a arte do futurismo. Como, de fato, é apenas uma arte, isso já afasta, por si só, qualquer caráter científico, daí a denominação do título deste texto. Fique o leitor à vontade para acreditar, descrer, concordar ou discordar.

Depois vem o pessimismo intrínseco ao prognóstico. E não é a primeira vez que falo sobre o tema, porque não me canso de lamentar a hipocrisia de uma sociedade que anda de mãozinhas dadas para repudiar a violência, mas torce pela eficiência do vírus. Atenção: eu apenas lamento, mas não repudio, porque também sou humano, demasiadamente humano para ser perfeito.

E, ao fim, há o perigo de se cair num discurso meramente moralista, porque, para decidir qual será o critério para verificar uma melhora da humanidade, é necessário comparar-se o antes e o depois, situação em que veremos se, no período posterior, alguma situação indesejada deixou de ocorrer e, ao mesmo tempo, alguma situação desejável passou a acontecer. Isso, sem dúvida, é uma decisão moral.

E o moralismo tem vários problemas, dos quais podemos destacar dois: 1 — o risco da hipocrisia, que tanto lamento, porque a moral vive de valores; valores são subjetivos, pois cada um cultiva os seus; consequentemente, o valor que eu adoro pode parecer um desvalor para quem me lê, o que, ao final, resulta em um produto que parecerá, ora simpático pela exaltação daquilo que se pode gostar, ora antipático pelo que não se gosta; 2 — a arbitrariedade da eleição dos valores por quem elabora a lista, já que quem vai ler não terá o direito de dar qualquer opinião sobre esses critérios.

Sim: não acredito em valores universais, pois, no final das contas, quem decide sobre essa universalidade é essa criatura imperfeita — o ser humano — que, a história nos conta, é pródigo em ações desvalorosas. Claro: sei que acabei de realizar uma valoração, mas fazer o quê?

Pois bem, como nem tudo é democracia, vamos aos valores que eu, autocraticamente, elejo para chegar à conclusão do título: menos violência, mais altruísmo e menos hipocrisia. São questionáveis? Claro. Eleja os seus, meu caro leitor, pois todos eles têm lugar à farta mesa da nossa coleção de erros.

Baseado nesses meus valores, listo a seguir alguns acontecimentos históricos que evidenciam que o curso da humanidade não girou para uma melhora após eventos traumáticos ou catastróficos, como os que vivemos hoje com a pandemia. Alguns deles são de existência questionável, ou não cientificamente comprovados, mas o legado dos ensinamentos que deixaram deveria, em tese, ter contribuído para a tão desejada “melhora”, por isso também estão aí. Vamos a eles:

 

A morte de Sócrates e a dominação grega do mundo

A existência de Sócrates é controversa. Há quem defenda que ele tenha sido uma entidade usada por Platão para dar uma voz aos seus diálogos e um material fictício para as histórias de Xenofonte. Acreditar na sua existência, entretanto, é a melhor via, sobretudo porque nos deixou grandes ensinamentos, desde os conselhos de moderação e temperança até a sábia atitude de admitir que se sabe muito pouco diante do vasto conhecimento disponível no mundo — ou, nas palavras de Issac Newton: “O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano” (sim, eu também assisti “Dark”).

Claro que, dentre tantas virtudes, há a maiêutica, processo pelo qual Sócrates ia fazendo sucessivas perguntas ao seu interlocutor até que ele caísse em contradição, justamente para provar que a premissa absoluta da qual se partia era um equívoco. Isso, com o perdão do coloquialismo, devia ser mesmo muito chato para quem sofria: imagine um velhinho que lhe para na rua para perguntar algo e, a partir da sua resposta, formula outras tantas questões para, ao fim, lhe convencer do equívoco?

Mas foi assim, parindo ideias, que Sócrates fez a sua fama, o que incomodou uma sociedade ateniense fortemente apegada aos deuses do Olimpo. Ora, se alguém passa a convencer as pessoas de que suas concepções são erradas, os deuses se zangam: sim, deuses vivem da fé dos crentes e, quanto mais se sabe, menos se acredita. Conclusão: Sócrates foi acusado de não acreditar nos deuses tradicionais e de cultivar outros, não benquistos em Atenas e, é claro, de corromper a juventude com suas ideias heterodoxas.

Condenado à morte pela cicuta, Sócrates insistiu em cumprir a sua pena, ainda que tenha tido a chance de escapar da cela por obra de seus amigos e leniência de seus carcereiros. Por mais injusta que fosse a sentença, ele acreditava que mais injusto ainda seria deturpar o sistema com o não cumprimento de uma decisão proferida de forma legítima pela sociedade em que vivia.

Só a condenação e morte de Sócrates, em 399 a.C., já eram suficientes para admitirmos o mau agouro do caminho da humanidade, mas o que veio algum tempo depois foi ainda pior: Alexandre, filho de Filipe II, levou adiante o chamado plano pan-helênico de seu pai, que se tornara rei da Macedônia e, com uma Grécia subjugada, passou a dominar vastas regiões do mundo conhecido até então.

Ironicamente, Alexandre fora aluno de Aristóteles, um dos mais proeminentes filósofos da escola socrática. Sua conquista do Império Persa parece ter sido glamourosa, mas, entre gregos, sírios, egípcios, assírios, babilônicos e outros, seus exércitos mataram, por baixo, mais de 90 mil homens, além de ter escravizado pelo menos outros 30 mil.

É claro que idolatramos Alexandre por sua coragem e destemor em levar a cultura greco-ocidental para o mundo. Eu me incluo aí, mas (e aqui é bom lembrar que tudo que é dito antes de um “mas” em qualquer frase perde a relevância — assisti “Game of Thrones” também) isso também implicou em imposição autoritária dessa cultura e na tentativa sistemática de massacrar a cultura alheia.

 Jesus Cristo e os pecados do cristianismo

É difícil falar em Jesus Cristo sem que a referência a ele pareça ser um apelo à religiosidade como argumento para se convencer de um determinado ponto. De existência também questionada, o Salvador dos cristãos inaugurou uma nova fase na fé judaica, substituindo a ira divina pelo amor ao próximo. Ao invés de atirar pedras nos pecadores, que as guardasse nos bolsos quem também tivesse pecados; olhar os lírios do campo que, mesmo belos, são queimados no forno, para aprendermos que a beleza da alma importa mais do que bolsas Dior e sapatos Gucci.

Não obstante, Jesus foi condenado no Sinédrio e na Corte de Pilatos. Conta-se ainda que, entre ele e Barrabás, a multidão preferiu que soltassem o salteador.

Como Sócrates, Cristo também morreu como mártir, o que, mais uma vez, atesta que somos mais lobos do que cordeiros. Em seguida, os cristãos foram sistematicamente perseguidos, mas encontraram um aliado em Saulo, o soldado romano que, depois de tanto lutar contra a nova religião, a ela se converteu e virou Paulo de Tarso.

Segundo Nietzsche, Paulo deturpou as lições do Mestre e legou o que seria, no máximo, um paulinismo, moralista e covarde. As cruzadas e outras imposições católicas contra bruxas, hereges, apóstatas e outras religiões nos mostram o resultado de como Paulo não conseguiu passar adiante, de forma muito eficaz, o ensinamento de amar ao próximo como a si mesmo.

Entre milhares e milhões, a história se controverte sobre quantas pessoas morreram por obra das cruzadas e do Santo Ofício. É claro que não se pode julgar a Igreja e a cristandade de hoje por atos cometidos na Idade Média, mas, como se pode ver, temos aí um claro indicativo de como a humanidade não foi bem depois da passagem do nazareno.

 As tragédias do Século 14 e a Guerra dos Cem Anos

No início do Século 14, intempéries climáticas prejudicaram a produção agrícola no norte da Europa de tal forma que os grãos não germinavam nem curavam a ponto de se poder alimentar as pessoas e os animais. A ausência de alimento vegetal e animal no mercado provocou aumento de preços e, é claro, uma fome coletiva sem precedentes, especialmente sobre a classe camponesa, que compunha cerca de 95% da população.

Não bastassem as consequências animalescas que tal estado provocou — canibalismo, infanticídio (conta-se que a história de João e Maria teria surgido daí) e criminalidade em massa, algo que só Thomas Hobbes seria capaz de explicar — o Século 14 ainda veria o surto da Peste Bubônica, doença causada por uma bactéria carregada por ratos, provavelmente transportados em navios genoveses que faziam a rota da seda pela Ásia.

Não obstante a peste tenha resultado na morte de certa de 75 a 200 milhões de pessoas na Europa e na Ásia, a humanidade nos brindou, em 26 de agosto de 1346, com a Batalha de Crecy, onde, conta-se, teve lugar a utilização de canhões, o que, se não era inédito, foi uma das primeiras vezes em que um exército experimentou essa máquina de morticínio em massa.

Tudo, é claro, porque o rei francês Carlos IV morreu sem sucessores. Como na França de então a linhagem feminina não ascendia ao trono, o rei inglês Eduardo III, sobrinho de Carlos IV, não concordou com a coroação de Filipe VI, que era apenas um sobrinho-neto. Reivindicou então o trono francês, o que proporcionou uma guerra de mais de 100 anos de duração entre Inglaterra e França.

É difícil contar os mortos, mas em um só dia (25 de outubro de 1415), por exemplo, na famosa Batalha de Azincourt, morreram mais de 10 mil franceses.

 A Revolução Francesa, o Terror e… Napoleão!

O Século 18 ficou conhecido como o “século das luzes”. Os iluministas produziram grande parte do material que propiciou livrar o mundo do modelo absolutista, que misturava Estado e Igreja e legitimava a concentração de todo o poder nas mãos de governantes despóticos que, muitas vezes, não estavam muito aí para o bem-estar do seu povo.

Sim, conflitos sangrentos nos mostram que devemos à valentia de soldados e exércitos a existência da vida como ela é hoje, ou, em outras palavras, o modo de vida capitalista-ocidental, baseado na proteção do indivíduo em face de um Estado que deve servi-lo, e não o contrário, como era antes. Britânicos à parte, cujos reis foram cedendo paulatinamente seus poderes até a implantação de uma democracia monárquico-parlamentarista, foi assim que os Estados Unidos da América se tornaram independentes e também dessa forma que a França substituiu Luis XVI pelo Diretório, após o início de uma revolução em 1789.

Antes do Diretório, porém, o Terror estabelecido pelo jacobinismo de Danton, Marat e Robespierre matou mais de 16 mil inimigos da revolução, o que nos prova que, sejamos burgueses ou bolcheviques, não adianta nada condenarmos os 6 mil fuzilados sem julgamento de Fidel se não reprovarmos também a carnificina iluminista.

Iluminismo, aliás, que, na França, produziu ainda Napoleão Bonaparte. Com os franceses cansados das incertezas revolucionárias e das contrarrevoltas monarquistas, criou-se o ambiente para o famoso golpe de 18 Brumário (9 de novembro de 1799), que substituiu o Diretório por um Consulado protagonizado por Napoleão. O consulado virou um império, cujo expansionismo napoleônico também custou algumas milhares de vidas ao mundo.

 A gripe espanhola e os massacres do Século 20

A gripe espanhola ganhou esse nome porque, segundo consta, foi na Espanha que ela ganhou maior projeção na imprensa (que então era livre por lá), e não porque tenha surgido naquele país.

Carcomido pelo final da Primeira Grande Guerra, em 1918, o mundo ocidental ainda sofreria com as agruras do vírus influenza, até 1920, quando morreram entre 17 a 50 milhões de pessoas. O vírus, também conhecido como H1N1, voltaria também em 2009, mas não com tanta força (cerca de 18 mil mortes oficiais confirmadas pela OMS ao redor do mundo).

O ser humano, por sua vez, não reagiu de forma tão benevolente: no início da década de 1930, Joseph Stálin pretendia acelerar a coletivização da agricultura russa com a desapropriação em  massa das terras soviéticas (sim, a Revolução fora em 1917, mas um Estado não passa a controlar todos os meios de produção num passe de mágica). Em resumo, os membros de uma “elite camponesa”, que não teriam se submetido pacificamente, foram deportados para lugares como a Sibéria, onde milhares morreram de frio e de fome; outros foram levados para campos de trabalho forçado. Além disso, houve política de captação de grãos, pelo governo soviético, principalmente na Ucrânia — onde havia muita resistência — deixando aos ucranianos uma quantidade medíocre para consumo anual de sua própria população, o que resultou não em milhares, mas em milhões de mortos pela fome.

Essa política foi batizada, anos depois, de Holodomor, uma adaptação do termo ucraniano para “matar de fome”. Estima-se entre 2 a 12 milhões de mortos.

Mas, como pau que dá em Chico tem que dar também em Francisco, temos que nos lembrar, ainda, de Adolf Hitler e seu Holocausto de judeus e outros grupos étnicos e sociais, estimado em aproximadamente 6 milhões de pessoas mortas por, simplesmente, serem pessoas que não interessavam ao regime nazista.

A palavra holocausto vem do grego holos (todo) kaustro (queimado). Os gregos queimavam cordeiros em sacrifício aos seus deuses. Mas, para que não imaginemos que esses genocídios sejam fruto apenas de uma humanidade dominada por fascínoras do Século 20, conta-se que Agamenon, o chefe do exército grego durante a Guerra de Troia, sacrificou sua própria filha, Ifigênia, para que os deuses lhe dessem ventos para atravessar o mar Egeu. Há relatos de que astecas sacrificavam pessoas, em grandes quantidades, em favor de suas divindades; mas os celtas também o faziam. Então, só para não perder o costume de ser chato, se menos violência é um critério válido para o termômetro de melhoria da humanidade, oremos para que se lamentem, sem exceção, todos esses holocaustos.

 

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