Brazi JN Rapidão
Crônica

O acidentado

“Faça o bem sem saber a quem!”

28/07/2020 19h47Atualizado há 1 semana
Por: Lameck Valentim

Por Carlos Rubem

 

Por 18 anos consecutivos, palmilhei a PI 143 para exercer as minhas atribuições como membro do Ministério Público do Estado do Piauí nas Comarcas de Simplício Mendes, Paes Landim e Campinas do Piauí. Residindo em Oeiras, quase que diariamente me dirigia a essas cidades. Nessas minhas viagens, peguei e dei muita carona, teria muita coisa a relatar.

Para quem não sabe, tenho um vício de cheirar rapé, para o desgosto dos meus familiares e determinadas criaturas. Ao ensejo “dessa doença da moda”, como diz a Mãe Ice (Alice), minha tia, nem posso espirrar!

Faz tempo que adquiro torrado na Casa dos Temperos, situada na Praça Mafrense, cujo proprietário é o amigo Antônio Carão. O pó é aromatizado, vem acondicionado em latinha, compro de dúzias.

Hoje de manhã (28.07.2020), me dirigi àquele estabelecimento comercial visando me abastecer daquele produto. Enfrentrei uma fila, mantendo a distância regular e usando máscara para tanto.

Já dentro do meu carro, um rapaz moreno, estatura mediana, aproximou-se gesticulando. Baixei o vidro da porta. O desconhecido foi logo dizendo que eu não o conhecia, mas há muito desejava dizer algo para mim e a hora havia chegado, inclusive pontuou que a esposa dele, que se achava ao lado, lhe pediu que não perdesse a oportunidade.

Confesso que imaginei que ele quisesse me dar uma “facada”. Não é de hoje que muitas figurinhas carimbadas de Oeiras, na maior cara-de-pau, me pede dinheiro para variados fins, inclusive eleitoreiros. Além de negar peremptoriamente, ainda passo-lhes uma boa carraspana, embora saiba que ninguém está livre da malandragem. Sou solidário, caritativo, dadivoso, mas procuro evitar golpes da malandragem.

No entanto, passei a ouvir o interlocutor sem nenhum receio. Relatou-me que queria, mesmo que tardiamente, me agradecer por um gesto que pratiquei em 2005, que nem mais me lembrava.

Em verdade, certa data, retornando de Simplício Mendes, vi, ao longe, algo fora da ordem. Espraiado sobre a pista asfáltica, antes da Ladeira da Onça, estava uma vaca, uma motocicleta e uma pessoa.

Estacionei a minha velha Blazer (1996). Liguei o pisca-pisca em sinal de alerta. Tomei as iniciativas que me cabiam naquele contexto. Coloquei o veículo do acidentado no acostamento, cortei galhos de jurema e os coloquei, como aviso aos motoristas, antes e depois donde estava o animal morto.

Constatei que um rapaz gritava, se contorcia de dor, ensanguentado, talvez com um membro superior quebrado. Com jeito e ajuda do próprio, coloquei-o no meu veículo e trouxe para o Hospital Regional Deolindo Couto, onde recebeu atendimento médico e dele nunca mais tomei conhecimento.

Leonides Miranda é o nome dele, aparenta ter 35 anos. Senti sinceridade em suas palavras que expressavam gratidão, o que me deixou desvanecido. Desci. Abracei-o. Fiz uma selfie desse nosso casual encontro.

E me lembrei brocardo que minha inesquecível mãe, Aldenora Campos, me catequizava: “Faça o bem sem saber a quem!”

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