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Samuel Valentim
Crônica

Pé da Lei

Crônica de Carlos Rubem

05/10/2020 17h37
Por: Lameck Valentim

Por Carlos Rubem

 

Aconteceu nos anos quarenta. Oeiras vivia o seu marasmo interiorano. A sua economia girava, praticamente, em torno da exploração de cera de carnaúba. Quem extraia alguns quilos de pó da árvore da vida era tido como rico. Os vultosos lucros desta atividade agrícola beneficiaram muitos fazendeiros e animavam os seus agregados. No jogo de interesse para arrendar um carnaubal se valia de tudo. Daí surgiram grandes empreendimentos, fortunas e intrigas, também.

Uma das desavenças pessoais decorrentes da comercialização dessa matéria prima marcou época no seio do povo oeirense: a rixa entre os proprietários rurais Thompson Magalhães versus Joaquim Santana.

A cada dia a turma do leva-e-traz comentava a respeito das rivalidades desses inimigos declarados. Os lances mais graves eram repassados à boquinha.

Tinham seus “cabras” para qualquer serviço. Nos botequins, nos forrós, nos cabarés, os ânimos dos desafetos se exaltavam com frequência. Tudo movido a “Caboclinha”, cachaça fabricada no sítio Tapera do Sr. Lourenço Barbosa.

Um desfecho fatídico era pressentido por todos. Sim, aquilo só podia terminar com areia de cemitério pelo meio!

Naquela ocasião, o elevadíssimo cargo de Delegado de Polícia era exercido pelo Sr. José de Sousa Lopes, o indefectível Zé de Sinharinha.

Baixo, magro, cor morena, cabelos lisos, voz estridente, conversador incansável. Conduzia, infalivelmente, um punhal muito bem encastoado e uma garrucha que não crescia mais.

Negociava animais tropeiros com tanto conhecimento de causa, lábia e esperteza que fazia inveja a qualquer cigano.

Não possuía saber técnico-jurídico, no entanto, resolvia satisfatoriamente as quizilas tipo briga de vizinhos.

Devia incondicional respeito ao chefe político que o indicou para aquela cobiçada função de relevo social.

Antanho, a maior concentração semanal de pessoas ocorria aos sábados, dia costumeiro da feira. Matutos de todos os quadrantes do município se deslocavam para a sede urbana visando vender a sua produção agrícola e comprar bens industrializados no comércio citadino.

A parte externa do Mercado Público ficava apinhada de gente. Os animais cargueiros eram amarrados ao tronco das frondosas árvores que circundavam a principal praça mercantil. Eram tantos jumentos, burros, cavalos que não havia cristão no mundo que tivesse condição de contar o número de quadrúpedes ali reunidos.

Via de regra, no fim da feira havia sempre briga. Raparigas embriagadas trocavam xingamentos. Entravam em refrega corporal. Havia puxavanco de cabelos. Unhas afiadas provocavam rubras escoriações. Vestidos eram rasgados.

Nessa hora a gritaria dos espectadores se ouvia de longe. Gostosas gargalhadas eram dadas. Meninos curiosos ficavam inertes, boquiabertos, ante a visão das partes pudendas dessas profissionais do amor.

Briga de homem tinha outro resultado. Cada furada de faca debaixo do umbigo que dava arrepio. As tripas do lado de fora causavam passamento aos menos acostumados com aquela cena horripilante. Via-se gente correndo com medo da contenda para todos os lados. Algazarra geral: barracas eram derrubadas; caixões que continham cereais eram virados; os donos das bodegas, precavidos, fechavam as portas.

Em seus consultórios particulares, carentes de recursos materiais, beneméritos médicos assistiam os que sofriam vulnerabilidade corpórea. Não havia, ainda, o hospital. Era precário o atendimento de urgência.

Certa feita, o sol já se pondo, a feira estava praticamente terminada, quando os mangalheiros juntavam seus apetrechos, ouviram-se estampidos de revólver.

Aí viram um corpo estendido na entrada sul do Mercado. O moribundo, todo ensanguentado, era Fernando, “cabra” de confiança do cearense Thompson Magalhães.

O autor desse homicídio foi Joaquim Santana. Disparos certeiros, fatais. Sem dúvida, um acerto de contas.

Havia inúmeras versões como ocorrera esse crime, mas ninguém queria se comprometer, servir de testemunha.

Um moleque de rua se dirigiu, em doida carreira, à Delegacia par informar sobre a ocorrência delitiva. O Delegado Zé de Sinharinha ordenou a três sonolentos soldados que capturasse o criminoso. Com o escrivão de polícia foi fazer uma inspeção no local do crime. Deram-se o início às investigações preliminares. Com ajuda de um carroceiro, o Delegado trasladou o cadáver para a única sala da cadeia.

Por outro lado, havia enorme expectativa da população, pois Joaquim Santana, logo após o crime, tranquilamente, encaminhou-se à secular Casa Tapety (1888) no intuito de comunicar o ocorrido funesto ao seu influente amigo proprietário daquele estabelecimento comercial.

No entanto, José Nogueira Tapety, político habilidoso, não se encontrava presente naquele momento. Ali se achava somente a sua esposa Dona Salomé e alguns caixeiros. A referida matrona ouviu respeitosamente as explicações pessoais do cabo eleitoral de sua agremiação partidária.

Quando menos se esperava, três soldados adentraram a Casa Tapety para prender o autor do crime. Dona Salomé, mulher corajosa, de atitudes enérgicas, já acostumada nos embates da vida, levantou-se e, impávida, repreendeu os atrevidos agentes da Força Pública lhes dizendo que voltassem, rapidamente, ao seu local de trabalho. Deixassem que ela saberia contornar esse grave problema.

Ato contínuo, Dona Salomé Tapety pediu a dois acadêmicos de farmácia, Alberto Reis e Penaforte Sá, que estavam em Oeiras em gozo de férias, que acompanhassem o seu amigo Joaquim Santana até à Delegacia local.

Todo instante que passava, crescia o número de curiosos que entravam na Delegacia para ver o corpo da vítima perfurado à bala. O converseiro dos populares tinha virado uma Torre de Babel. Ninguém entendia nada.

Irritado, com os nervos à flor da pele, completamente transfigurado, o Delegado Zé de Sinharinha abriu um empoeirado armário de madeira e dele retirou um facão rabo-de-galo. Chegou próximo à sua mesa de trabalho e começou a bater, furiosamente, com esse instrumento sobre a mesma fazendo um estrondoso barulho que espantou os presentes.

Em seguida, estufando o peito, bradou:

– Silêncio... silêncio, exijo respeito! Não quero mais zoada aqui. Quem está falando é uma autoridade... Determino a evacuação de todos. Sem exceção!

O Delegado falou, está falado. Os curiosos saíram calados que não deram um pio. A ordem suprema foi cumprida à risca. Quem era besta para contrariá-lo?

Ainda nervoso, Zé de Sinharinha saiu pra as calçadas da Delegacia visando preparar seu apetitoso cigarro racha-peito. Enquanto, meticulosamente, cortava o fumo bravo, um despercebido beroso, usando enorme alparcata currulepe, pisou de cheio em cima do pé esquerdo dessa irreverente autoridade, exatamente sobre o seu velho calo de estimação.

Paralelamente, o Delegado deu um desesperado grito e pulou para trás. Contorcendo-se de dor, o Delegado avançou nesse infeliz caboclo e o aberturou pelo gogó, e esbravejando:

– “Teje” preso, “fio” de uma égua!

– Qual o mal que cometi, seu Delegado, perguntou o pobre sertanejo.

– Você pisou no pé da lei!...

 

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