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Samuel Valentim
Afago

A falta que faz o abraço

A ciência explica que o abraço tem poder terapêutico e o recomenda com frequência para ajudar a atenuar os sofrimentos.

06/10/2020 08h06
Por: Lameck Valentim
Fonte: Mundo Cidadão/José Osmando de Araújo

Mundo Cidadão/José Osmando de Araújo

 

O isolamento social a que todos fomos arrastados por essa pandemia do Coronavírus, tirou da gente um gesto que expressa os mais amplos significados dos nossos afetos, o ato de abraçar. Essa forma calorosa de contato nas nossas relações com a família, com os amigos, os namorados e namoradas, marido e mulher, os pais e mães, os filhos, os netos, sofreu triste mutilação.

Nossos braços - por mais fortes que sejam os desejos-, estão proibidos de estender-se aos corpos dos outros, de passar as boas energias e os sinais de amor e amizade que essa manifestação simbólica tanto traduz, especialmente para nós, brasileiros, tão escancaradamente afetivos. Nossa rotina foi drasticamente alterada; acolhemos cuidados nunca antes imaginados, como o uso de máscara, as reservas no toque entre pessoas, mesmo que seja dentro do nosso próprio ambiente familiar.

 E demos adeus ao Abraço

Logo ele, esse companheiro inseparável, que colocamos em movimento quando vamos partir, ou quando estamos chegando; quando estamos felizes, e temos alegria de alguma conquista, de uma boa nova, para transmitir ao outro; ou quando estamos muito tristes e necessitamos de outros braços para atenuar as nossas dores.

A ciência explica que o abraço tem poder terapêutico e o recomenda com frequência para ajudar a atenuar os sofrimentos, pois, ao abraçarmos, liberamos um hormônio chamado ocitocina, que alivia o estresse. Assim, o abraço também é saúde, é bem-estar! É com ele, por ele, que fortalecemos nossas relações, expressamos nossos afetos e nos revigoramos nas horas mais incertas.

Esse afago contém incontáveis benefícios, que vêm sendo progressivamente atestados por descobertas científicas, a exemplo de um estudo desenvolvido, em 2013, na Universidade Médica de Viena, na Áustria, liderado pelo neurofisiologista Jürgen Sandkühler, comprovando que abraçar alguém que confiamos pode, além de promover o bem-estar, reduzir a pressão arterial e melhorar a memória. O responsável por tudo isso é a oxitocina liberada no organismo. O hormônio, relacionado à felicidade, quando presente na corrente sanguínea, reduz a pressão arterial e diminui a sensação de estresse e ansiedade.

Ainda, um abraço pode aliviar a dor. É o que a psicóloga Karen Grewn descobriu em seu estudo na Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Para chegar nessa afirmação, ela e sua equipe recrutaram mulheres que sofriam com enxaqueca e, com os abraços, as participantes relataram melhora significativa na dor de cabeça. A conclusão da psicóloga é que o cérebro recebe primeiro os sinais de alívio em relação à sensação de dor durante essa ação.

O abraço, na condição em que estamos, eliminado pela necessidade de segurança contra o vírus, faz falta. É difícil saber quem de nós, acostumados com essa prática afetuosa e salutar, não fique triste com a sua ausência.

Abraçar é tão benéfico que já existe, até, a Terapia do Abraço, aplicada em pessoas de todas as idades, sexo e gênero, servindo para diminuir os riscos de doenças cardíacas, os níveis dos hormônios do estresse, ajudando no controle da ansiedade, no fortalecimento do sistema imunológico, na liberação da oxitocina – o hormônio da felicidade, contribuindo para rejuvenescer, na medida em que melhora a oxigenação do sangue; promove a produção de hormônios do bem-estar, ativando funções curativas, além de realçar a empatia, evitar a depressão, e acalmar bebês e crianças. Ou seja, o abraço faz um enorme bem ao coração e constitui um símbolo marcante da Paz, algo de que tanto e cada vez mais necessitamos.

Além dos benefícios à saúde, da influência no fortalecimento das amizades e da celebração do amor, o abraço tem um forte simbolismo na fixação da paz entre pessoas e povos. Daí, ser cantado na música e na poesia, como sendo é um “poema de amor escrito na pele, que quebra todos os medos e isola todos os arrependimentos.”

Gosto muito do texto “O Laço e Abraço”, escrito por Maria Beatriz Marinho dos Anjos, que muita gente, nesses enganos e tropeços das redes sociais, teima em achar que o autor seria Mário Quintana. Vejam quanta sensibilidade e beleza ele contém:

 O LAÇO E O ABRAÇO

Meu Deus! Como é engraçado!

Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas. Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço. É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado debraço. É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço. E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando devagarinho, desmancha, desfaz o abraço.

Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido. E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.

Ah! Então, é assim o amor, a amizade. Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita. Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas bandas do laço. Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.

E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços. E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.

Então o amor e a amizade são isso...

Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam. Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço!

 

Pois é. Não vejo a hora de poder voltar a exercitar todo o esplendor do Abraço. Ele está fazendo muita falta.

 

 

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