Samuel Valentim
Brazitaly
Crônica

A Bala e Mitra

Crônica de Carlos Rubem

08/10/2020 21h51Atualizado há 2 meses
Por: Lameck Valentim

A trágica morte de Dom Expedito Lopes, Bispo de Garanhuns-Pe, perpetrada pelo seu subordinado hierárquico, Padre Hosana de Siqueira e Silva, Vigário de Quipapá, causou repercussão internacional. Em Oeiras, a fatídica notícia envolvendo o primeiro Prelado de sua Diocese motivou estupefação, claro! Caracterizada como martírio. Imitou o Divino Mestre. Pediu perdão para o seu algoz.

Daí muitos rebentos receberam o seu nome. O então povoado Cabeço, ao ser elevado à condição de cidade, foi batizado com o seu nome em homenagem ao desditoso Príncipe da Igreja. O mano João Henrique foi instado a celebrar a sua primeira comunhão na catedral onde se encontra sepultado os restos mortais do venerando Antístite, naquela serrana urbe. Pagamento de promessa para a satisfação da tia Mirista & Cia, por graça alcançada. Morri de inveja porque não fui a este passeio, num caminhão da ANDA.

O Padre Hosana era resoluto, egolatrista. Psicopata de personalidade fanática e litigante, segundo laudo médico-legal. Embora admoestado por Dom Expedito, não se rendia às prescrições canônicas. Como natural, decretou-se-lhe a sua suspensão “a divinis”.

O móvel do crime, em síntese, reportava-se “as malévolas e graves suspeitas que pairavam sobre a conduta moral da mulher, de nome Quitéria, que o homicida conserva em sua companhia há dois anos”. Em verdade, provas concretas inexistiam.

Sacerdote disciplinado, Dom Expedito asseverava: “Eu cumpro ou faço cumprir a lei. Não posso transigir na observação de minhas atribuições. Executo aquilo a que me autoriza a igreja”. A sua sorte estava lançada. Homem simples, afável, criativo.

Naquele dia aziago, o Padre Hosana dirigiu-se ao Paço Episcopal. Acionou a campainha. O Senhor Bispo veio abrir a porta. Surpreendido – e não à traição como indica o libelo acusatório, no nosso franco entender – foi alvejado com três disparos de revólver, certeiros. Faleceu horas depois em decorrência dos ferimentos recebidos.

A pesquisadora pernambucana Ana Maria César lançou o livro A Bala e a Mitra, ensaio acerca do crime em apreço. Obra que suscita curiosidade insopitável. Trabalho exaustivo, elaborado por profissional que bem sabe garimpar informações. Em nota introdutória, a autora questiona: “E ainda hoje se pergunta o que teria levado um sacerdote a infringir um dos mais graves mandamentos da lei de Deus. Quem era o padre Hosana? E Dom Expedito? Que fizera para impulsionar o seu pároco a imolá-lo?” Para logo apresenta profundadas e incontestes explicações sobre o badalado delito. O leitor sente-se gratificado. Vale a pena embrenhar-se nessa leitura instigante, objetiva, veraz.

Sobre a obra, o jornalista Waldemar Lopes assim expressou-se: “é um bom de modelo de como se fazer História. Com o gosto obstinado da pesquisa, empenho sem cansaço na busca da verdade, a total isenção em face a realidade dos fatos, o senso crítico sempre acima da deturpação das paixões”.

A Bala e a Mitra o tenho por empréstimo. Não pretendo devolvê-lo ao seu legítimo dono. Agregou-se à minha pobre biblioteca. Assiste razão ao Marquês de Maricá: “Livro emprestado no Brasil é filho pródigo que não volta jamais à casa paterna.”

O processo criminal, corretamente, foi desaforado de Garanhuns para o Recife. Padre Hosana submeteu-se por três vezes a julgamento perante o Tribunal do Júri Condenado, foi-lhe aplicado a pena de 19 anos de reclusão. Em 1968, concedeu-se-lhe livramento condicional. Os dois anteriores julgamentos foram anulados.

Após o primeiro veredicto, sob o argumento da legítima defesa do honra, o Padre Hosana “lembrou cavilosamente, que o Papa Pio XII, quando Núncio Apostólico em Munique, manteve a seu lado durante 19 anos, a irmã Pasqualine, que tinha inclusive acesso aos seus aposentos. Assumindo a Santa Sé, a irmã Pasqualine continuou a viver com o Papa, sem que este fosse acusado de manter concubinato com a freira”.

Dias imediatos ao assassínio de Dom Expedito, o Desembargador Pedro Sá, aposentado, encontrou-se por acaso com o Prof. Possidônio Queiroz em frente à Igreja de N. S. da Vitória, em Oeiras. Dito magistrado, formado pela Faculdade de Direito do Recife, em 1913, era agnóstico, sarcástico, referiu-se a um outro fato histórico que assemelhava com o crime em tela. Disse que no final do Século XIX, o abade de Galeoti Cotelha, utilizando-se de um revólver, ceifou a vida do bispo de Madri, Dom Isquierdo.

E acrescentou: – Pois é, seu Possidônio, padre só mata bispo com três tiros: é pai, é filho, é espírito santo!

 

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