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REPRESENTATIVIDADE: Antônio Carlos Valentim: O homem que desafiou o comodismo

Negro, de origem simples, construiu um patrimônio, formou uma família bem sucedida, desafiou os padrões religiosos da época, ao fundar a Primeira Igreja Batista numa cidade em que o catolicismo sempre foi a religião predominante.

PRA NÃO PASSAR EM BRANCO

PRA NÃO PASSAR EM BRANCOEspaço dedicado ao povo negro

01/11/2020 18h02Atualizado há 3 dias
Por: Lameck Valentim

*Por Lameck Valentim

 

No mês de novembro, em que se comemora o mês da Consciência Negra, o Mural da Vila e o Tô no Mural fará a série de matérias REPRESENTATIVIDADE, contarão histórias de homens e mulheres negros de Oeiras e região.

Hoje conheceremos a história de Carlos José Valentim.

 Carlos José Valentim. Para muitos este nome não remete a um dos homens dono de uma das mais belas histórias de vida de Oeiras. Mas ao falar Antônio Carlos Valentim, todos saberão de quem se trata. É quase impossível ser um oeirense e nunca ter ouvido falar neste senhor que muito contribuiu para a história de Oeiras.

Negro, de origem simples, construiu um patrimônio, formou uma família bem sucedida, desafiou os padrões religiosos da época, ao fundar a Primeira Igreja Batista numa cidade em que o catolicismo sempre foi a religião predominante.

Antônio Carlos Valentim nasceu em 10 de novembro de 1933, filho de Hermógenes José Valentim e Helena Maria Valentim. É casado há 68 anos com Maria José Rodrigues Valentim, com quem teve os filhos: Francisco Carlos, Carlos Amado, Carlos Jônatas, Carlos David e Carlemita. Tem mais três filhos adotivos: Raimunda, Lameck e Betinha. Tem ainda 24 netos e 12 bisnetos.

Família Valentim

Logo após o seu casamento, Antônio Carlos teve que sair de Oeiras em busca de trabalho, passando a morar por três anos no estado de Goiás. Ao retornar, foi trabalhar como lenhador, ao lado do seu pai, logo em seguida passou a trabalhar como carvoeiro, na região onde hoje é o Soizão.

 A fundação da Igreja Batista

No período em que trabalhava como carvoeiro, conheceu o casal de americanos, Dr. Robertt Tillotson e sua esposa Margarett em 1956. Missionários da Igreja Batista, estavam na região num trabalho de expansão da igreja.  Ao chegarem a Oeiras, precisaram de um pedreiro para trabalhar no local em que seria a sede da igreja. Para este trabalho, foi indicado  Inácio Valentim, irmão de Antônio Carlos.

Casal de missionários americanos

A sua vivência em outras cidades fez com que aprendesse diversas atividades, dentre elas, mecânica de automóveis. Como o casal americano possuía um veículo, ele pediu ao seu irmão que caso eles necessitassem de alguém para fazer revisão do veículo que o indicasse e assim foi feito.

A proximidade com os missionários também o aproximou a denominação religiosa e assim, em Fevereiro de 1957, foi realizada a primeira Escola Bíblica Dominical, na sede da igreja localizada na rua Nogueira Tapety, no Centro de Oeiras. Na ocasião, apenas seis pessoas estavam presentes: o casal de missionários, seu filho Daniel, Antônio Carlos, sua esposa Maria José e o sr. Sefarim, casado com a irmã de dona Maria José.

Antônio Carlos conta que por ser uma cidade tipicamente católica houve muita resistência na época, sobretudo por parte do padre Balduíno Barbosa, que chegou a instalar um poste com um alto falante em frente a igreja para que o som atrapalhasse a realização dos cultos. Também relembra, que por ocasião de um culto realizado em praça pública, o grupo chegou a ser apedrejado por católicos, ocorrendo outros episódios de perseguição que só cessaram com a interferência do delegado André Rocha, que passou a fazer a segurança do grupo para que os cultos ocorressem sem perturbação.

Passado o tempo, os ânimos se acalmaram, acontecendo uma reunião entre o pastor Robertt Tillotson e o padre Balduíno, onde selaram a paz. A partir daí, não aconteceram episódios de animosidades, sendo que frequentemente o pastor e o padre se encontravam para longas conversas.

 A Padaria Brasil

Até os anos 2000 quem não comeu os pães da Padaria Brasil ou não experimentou a famosa bolacha mata fome?

Localizada na praça Visconde da Parnaíba, por 40 anos, a Padaria Brasil foi a grande referência em panificação em toda região de Oeiras. Seus pães, bolos, bolachas e outras iguarias eram vendidos para toda a região do território Vale do Canindé.

Ainda trabalhando como carvoeiro, a americana, dona Margarett, sugeriu que Antônio Carlos fizesse um bolo chamado de “Dona” para vender. Ela o ensinou a fazer o bolo e a partir daí ele passou a vender de porta em porta. Ao iniciar as vendas, foi criticado pelo delegado da época que disse que aquele era um serviço de moleque. Não desanimando, seu bolo foi um sucesso de vendas, passando a juntar dinheiro e teve a ideia de fundar a padaria, contratando uma pessoa para a construção do forno e indo a Teresina em busca de um padeiro profissional. A partir de então, a padaria cresceu sendo sucesso por 40 anos.

Na padaria muitas histórias aconteceram. Oeiras como foi dito “Terra de poetas, músicos e loucos”, muitos dos “doidos” famosos de Oeiras passavam por lá para se alimentarem.

Zé de Mariô, Antônio Carlos e Bibiu

Quando da sua passagem por Oeiras na década de 80, o profeta Gentileza, sempre ia a padaria se alimentar.

E como abria sempre às 3h da manhã, a Padaria Brasil era o “point” daqueles que voltavam das festas na madrugada.

Vereador mais votado em 1970

O sucesso como empresário, lhe rendeu um convite para ingressar na vida pública.  Inicialmente foi convidado a ser candidato a prefeito, não aceitando e disputando as eleições de 1970 ao cargo de vereador, sendo o mais votado. Todavia sua carreira política foi curta. Não concordando com algumas decisões e decepcionado com o meio, renunciou ao mandato e não teve mais interesse pela disputa a cargos eletivos.


Mesmo fora da política, passou a atuar em alguns setores, contribuindo para a instalação da empresa telefônica e foi um dos fundadores da Associação Comercial de Oeiras ao lado de outros empresários, como o seu grande amigo José da Luz Coelho.

O homem que criou duas onças

Dono de muitas histórias e possuidor de um bom humor, Antônio Carlos é conhecido por suas tiradas e contos engraçados. Ele sempre foi um apaixonado por animais. São famosos os cachorros da sua casa, onde também criava diversas espécies. Mas o que pouca gente sabe é que na década de 70 ele chegou a criar duas onças em sua residência.

Certo dia, ele disse a um caçador, que um amigo seu estava interessado em comprar dois filhotes de onça. Passado um tempo, o caçador chegou a sua casa com os dois filhotes em uma caixa. Antônio Carlos construiu um viveiro para os animais, passando a cuidar deles, tornando-se uma atração. O extremo cuidado que ele tinha com os animais, alimentando-os de carne todos os dias, fizeram com que elas tivessem um problema intestinal, vindo a morrer. “Na época os circos que vinham para Oeiras ficavam onde hoje é o Palácio Episcopal. Fui conversar com os tratadores dos animais e ele disse que as onças deveriam comer carne em dias alternados e aqui em casa elas comiam todos os dias”, recorda-se.

Ele também possuía uma vaca, que também morreu com problemas intestinais devido a alimentação. Em vez de alimentar o animal com ração ou capim, a alimentava com pães, biscoitos, pêtas e outros produtos da padaria. “Era uma vaca gorda, que dava muito leite, mas que devido a alimentação que tinha, teve um problema intestinal e morreu”.

Carlos José Valentim construiu uma história de sucesso. É um homem vencedor, e hoje colhe os frutos do seu trabalho vendo o sucesso dos seus filhos e netos. Sempre priorizou o estudo dos filhos, proporcionando todas as condições para a sua formação.

Um homem firme, honesto, sério, muitas vezes austero, dono de uma retidão de caráter rara para a sociedade hodierna. A sua história de vida inspira e é referência para muitos. No meio evangélico é um paradigma para a Igreja Batista não só em Oeiras, mas em todo o Piauí.

Goza do respeito e do prestígio de toda a sociedade. Já foi condecorado com a Medalha do Mérito Renascença pelo governador Wellington Dias, por quem tem grande respeito e admiração. “Conheço Wellington desde menino, estudou com meus filhos, brincava por aqui, e como ele mesmo já disse diversas vezes, pulava muito o muro daqui de casa para pegar côco”, diz entre risos.

Sempre alegre, gosta de estar entre amigos e familiares. Por algumas vezes, seu Antônio Carlos reunia em sua casa a sua família no dia 13 de maio, para comemorar a “libertação dos escravos”, em um evento em que aconteciam apresentações de danças típicas do povo negro, como baião, lezeira, dentre outras, manifestações estas que se perderam com o tempo.

Dentre todos as alegrias, vitórias, conquistas  e sucessos,  o maior bem que ele possui é ser um servo de Deus. “Muitos duvidaram das minhas ideias, mas sempre confiei e servi a um Deus que honra os que o seguem fielmente. Minha maior dádiva é servir a Deus”.

Prestes a completar 87 anos de idade, em 10 de novembro, Antônio Carlos Valentim ver que o tempo passou  e que tantas gerações se passaram e ele ao lado de sua esposa Maria José estão sempre presentes, atentos a toda a família e amigos, conversando, orando, intercedendo a Deus, orientando, aconselhando. São 68 anos de união, uma lição sobre vida, amor, respeito e tolerância.

 

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