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Novembro Negro

REPRESENTATIVIDADE: Harlon Lacerda: ‘’A minha resistência é meu espírito que aprendeu a esperar, mesmo calado por instante, o momento certo de gritar’’

Harlon Lacerda é diretor do Campus Possidônio Queiroz, da UESPI em Oeiras.

PRA NÃO PASSAR EM BRANCO

PRA NÃO PASSAR EM BRANCOEspaço dedicado ao povo negro

09/11/2020 17h59Atualizado há 3 dias
Por: Lameck Valentim

 No mês de novembro, em que se comemora o mês da Consciência Negra, o Tô no Mural realiza a série de matérias REPRESENTATIVIDADE, em que conta histórias de homens e mulheres negros de Oeiras e região.

Conheça hoje a história do professor Harlon Homem de Lacerda Sousa, professor, escritor, poeta, intelectual e atualmente no cargo de diretor do campus Professor Possidônio Queiroz, da UESPI, em Oeiras.

 

 Alguém, por aqui, consegue respirar? Eu não!”

 

Foi duramente representativa a frase desesperada de George Floyd enquanto ainda tentava lutar para não ser assassinado por um policial branco nos Estados Unidos. Essa frase ecoou mundo afora, o desespero dele ecoou mundo afora. Um grito que representa, hoje, o estado de sufocamento em que muitos de nós, negros e negras, vivemos e morremos a cada três minutos no Brasil. Eu, hoje com 37 anos, com um doutorado, um emprego estável e público, escapei diversas vezes de ser vítima desse sufocamento. Alcancei uma idade e uma condição de vida a qual a maioria dos meus irmãos e minhas irmãs não conseguiram, pois foram assassinados ou simplesmente lhes foi negada qualquer possibilidade de tentar. Mas, antes de você ficar dizendo aí que eu tenho uma história de “sucesso” para contar aqui, volte um pouco a leitura e veja que eu escrevi que vivemos e morremos num estado de sufocamento. Se eu escapei? Não. Eu não escapei. Eu sou sufocado todos os dias desde que eu resolvi sobreviver, desde que eu constatei a possibilidade de que eu poderia sobreviver. A minha sobrevivência é marcada pelas mãos que nunca saíram da minha garganta, pelos coturnos que nunca saíram do meu pescoço, pela corda enlaçada que nunca me deixou pular para fora do cadafalso. A minha história como professor doutor, servidor e gestor público, intelectual, poeta, escritor, pai, negro em Oeiras, no Piauí, no Nordeste, no Brasil de hoje não é uma história de “sucesso”. É uma história de resistência e de existência segurada por um fio de ar que ainda me mantém aqui. Eu não consigo respirar. E quem consegue?

 A percepção do racismo, do preconceito, do desrespeito, da injúria velada, da má vontade, da falsa amizade, da inveja é coisa comum que acompanha negros e negras por quase todos os lugares por onde andamos. De alguns lugares sociais, econômicos, políticos e regionais de fala, essa percepção é dificultada pela própria condição racial e estética de quem não percebe tais coisas. O fato é que quando nós, negros e negras, percebemos qualquer coisa daquilo que listei acima e falamos para alguém ou rememoramos junto com quem estava presente, rapidamente ouvimos: “você está exagerando!”, “Não foi bem assim!”, “Foi só uma brincadeira!”, “eu não escutei na hora que ele/ela falou…”, “Eles são assim mesmo!”, “Foi impressão sua!” etc, etc, etc. A forma muda, mas o conteúdo é apenas um: eles não percebem o racismo, não percebem por que nunca foi com eles ou com elas. Mesmo assim, eles respiram. Eu não. Por toda a minha vida passei por situações como essa e por muito tempo aceitei as fórmulas mágicas para deixar passar. E foi passando, fui crescendo, fui me formando, fui conhecendo cada vez mais pessoas que reproduzem o racismo, o preconceito, o desrespeito, a injúria velada, a má vontade, a falsa amizade e a inveja “sem querer”, “por imposição da formação cultural”. Mas, há algum tempo eu já não aceito fórmula mágica nenhuma. Entretanto, eu me calei e estou sufocando-me há anos vivendo num lugar, num país, em que eu tenho que me calar. Sim! Se eu tenho qualquer pretensão de concorrer a cargos de gestão institucional, se eu tenho pretensão de construir qualquer coisa além do que nos é imposto pelas limitações de pessoas limitadas, eu tenho que me calar. Tenho que sorrir até e aceitar aquele tapinha nas costas mesmo sabendo que existe uma faca apontada para mim. Mas eu estou chegando a um estado em que não aceitarei mais o tapinha nas costas, nem o sorrisinho diplomático, nem o silêncio. Estou chegando a um momento de minha vida em que preciso gritar: eu não consigo respirar!

 Trabalhar e viver num lugar no qual precisamos “rezar a missa e tocar o sino ao mesmo tempo” é tarefa árdua, pesada. E sempre tem aqueles espertos que dizem “ninguém solta a mão de ninguém”, mas são os primeiros a sair do jogo e a se deitar à sombra com os pés pra cima. E então precisamos arregaçar as mangas e brigar pra terminar o que começamos. Minha história de resistência começa aqui. Começa quando eu não aceitei de forma alguma ser tratado como pária, como “o professor doido”. Começa quando eu ergui a cabeça e assumi uma gestão e até hoje sou lembrado positivamente por ela, chegando a receber a medalha de Comendador da ordem do mérito renascença do Piauí. Começa quando eu chamei alguns estudantes para conversar e descemos da Oeiras Nova até o campus Professor Possidônio Queiroz com uma garrafa de soro caseiro e um colchonete debaixo do braço para acampar na instituição e fazer uma greve de fome. Até então os dedos que eram apontados para mim falavam do doido, do bêbado. Depois daquilo, os dedos, de apontados, ficaram em riste. Furiosos de inveja, de medo do que eu era capaz de fazer para defender os meus e as minhas, para defender a maior Instituição Pública do Estado do Piauí. Esse dedo em riste de ódio transformou-se rapidamente numa espécie de perseguição em estado de espera. Algumas pessoas esperam um erro, um mínimo erro, com as pedras todas já prontas em seus punhos, para atirar contra mim. Enquanto o erro não chega, tramam e sussurram maneiras de acabar com a “empáfia daquele diretorzinho”. Mas não se enganem. Todos esses fatos que estou narrando não estão localizados dentro de um único local de trabalho, nem apenas dentro da cidade, nem mesmo dentro do Estado. Essa é a dinâmica comum que qualquer negro e negra, em qualquer lugar, em qualquer profissão, em qualquer posição de mínimo destaque, passa aqui neste país. Um país de opressão, um país de sufocamento diário, um país que não nos deixa respirar um instante sequer.

 Mas resistir, gritar é preciso. É preciso impor as normas, a lei, para aqueles que insistem em passar por cima delas por acreditarem ter o direito de berço de infringi-las. Vamos construindo a resistência com nossas ideias, com nossa coragem, com nossos gritos pelas redes sociais, com nosso sorriso, com nossa competência que tanto incomoda. Hoje, a minha resistência está sendo apresentada na forma de um Programa de Extensão universitária: o PIRÃO-Comunidades. O programa que nasceu coletivamente e a cada dia agrega mais e mais pessoas para lutar, para resistir, para gritar contra o racismo, contra a desigualdade. É com a habilidade social de agregar quem verdadeiramente abre o coração para a participação ativa que conseguiremos respirar. Hoje, a minha resistência está sendo apresentada na forma de atuação no Programa de Pós-Graduação em Letras da URCA, executando um projeto e ministrando disciplinas. Hoje, a minha resistência está sendo apresentada na condução de uma gestão institucional pautada no diálogo, na participação democrática, na proatividade, na participação ativa em todos os setores da Instituição, na produção de projetos que vão além do que qualquer visão limitada poderia imaginar para esta unidade acadêmica. Hoje, a minha resistência está sendo apresentada na minha liberdade de viver como quero, onde eu quero, da maneira que quero. A minha resistência é meu amor por minha filha. A minha resistência é meu amor pela universidade pública. A minha resistência é meu espírito que aprendeu a esperar, mesmo calado por instante, o momento certo de gritar, lutar e destruir qualquer inimigo e qualquer dificuldade. A minha resistência é esperar sem ficar parado.

 O que eu ainda gostaria de dizer para o meu irmão negro e para a minha irmã negra que leu até aqui este relato é: estude, erga a cabeça, sorria irônica, corrosiva e sarcasticamente, dance, escreva, namore, viva, sobreviva, Grite! Um dia, nós iremos, juntos e juntas, conseguir respirar.

Harlon Homem de Lacerda Sousa

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