Samuel Valentim
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Novembro Negro

REPRESENTATIVIDADE – As irmãs Ester Gomes e Creusa Gomes: superação e resistência através da educação

Hoje, professoras aposentadas, as irmãs educaram várias gerações de Oeiras, que nutrem um carinho especial por elas

27/11/2020 17h21Atualizado há 2 meses
Por: Lameck Valentim

No mês de novembro, em que se comemora o mês da Consciência Negra, o Tô no Mural realiza a série de matérias REPRESENTATIVIDADE, em que conta histórias de homens e mulheres negros de Oeiras e região.

Hoje o Tô no Mural apresenta a história das irmãs Ester Gomes e Creusa Gomes, que venceram todas as barreiras através da educação.

Hoje, professoras aposentadas, as irmãs educaram várias gerações de Oeiras, que nutrem um carinho especial por elas.

Conheça a história dessas grandes mestras oeirenses!

Duas irmãs oeirenses, negras, do bairro Rosário são honrosas educadoras  da cidade de Oeiras.

Ester Gomes dos Santos Sousa e Maria Creusa dos Santos Vieira, são filhas de Mariano Gomes dos Santos e Hortalina Silva da Conceição.

Passaram sua infância no Bairro Rosário, onde seu pai Mariano Gomes era ourives (criava e elaborava joias de ouro e prata), dono de uma oficina de olaria, na época também possuía muitos jumentos, onde na época eram de grande valia e faziam transporte de mercadorias e de pessoas dentro da cidade e interior.

Aos 4 anos as duas irmãs viram o amor de seus pais serem desfeito, veio a separação. A Ester e Maria Creusa ficaram com seu pai Mariano e três anos depois o pai vendeu tudo que tinha em Oeiras e foram morar em Colinas no Maranhão, na casa do seu tio Olímpio Gomes (irmão do Mariano). Estudaram de início através de seu pai Mariano, onde lhes deram muito ensinamentos educativos, religiosos e éticos; “tudo que eu sei aprendi com meu pai, ele sentava trabalhando, fazendo as joias e ficava ensinando eu e Ester, conversava, dava conselhos para a vida, ensinou a rezar, naquela época os pais é que ensinavam as rezas”, relata Maria Creusa. Os estudos em Colinas ainda foram acompanhados pelo pai. Porém quando tinham 10 e 9 anos, respectivamente, Ester e Maria Creusa, veio a mais dolorosa das perdas, o falecimento de seu pai Mariano Gomes. As irmãs viram suas vidas criar um abismo de saudade, dificuldades, responsabilidades e se tornarem adultas ainda crianças com a perda do pai.

Na infância, Ester diz que teve que criar a irmã Maria Creusa (isso com a diferença de 1 ano de idade), pois cuidava, penteava, até nas brincadeiras ajudava a escalar árvores. Ester apelidava carinhosamente a irmã de Dió  Gomes, onde muitos hoje só reconhecem por esse apelido.

As irmãs estudaram em Colinas ainda por 2 anos, na casa do tio Olímpio Gomes. Onde, depois seu avô Manoel Gomes (papai Soné), foi buscá-las. Assim veio novamente morar no Bairro Rosário, em Oeiras, dessa vez com os avós paternos, com a prima Cita e o primo José Gomes dos Santos (Zé Gomes, in memorian; dono do Bar 2 irmãos).

Ao retornarem, as irmãs tiveram que passar por um “exame de admissão”, para assim, juntas, estudarem na 4ª série. No exame passaram com êxito e nota máxima e em vez de irem para a 4ª série, já ingressaram na 5ª série na U. E. Armando Burlamaqui. Concluindo essa série, ficaram sem estudar, por falta de recurso, não tinham condições de pagar os estudos. A falta da mãe e principalmente do pai era constante em suas vidas.

Aos 12 anos, relembra Maria Creusa, que quando ia visitar a mãe no interior, Beira do Rio, ensinava outras crianças a aprender ler e escrever. Já vinha o gosto e amor pela educação.  

Ficaram sem estudar por 10 anos. Nesse período trabalharam na quitanda e também na feira de Oeiras, vendendo legumes, pertencentes ao seu primo/irmão Zé Gomes. Aprenderam a costurar. Faziam roupas de alfaiataria belíssimas, na loja também de seu primo.

Foram longos 10 anos de trabalho árduo, mas com responsabilidades e dedicação. E mesmo sem estar em sala de aula, tinham amor pelos livros, a vontade de ensinar crescia em seus corações.

Com 23 e 22 anos, Ester e Creusa, através de outro exame de admissão, com êxito, ingressaram novamente na escola, graças ao Padre Balduíno Barbosa de Deus que trouxe para Oeiras o ginásio federal, assim estudaram a 1ª série do ginásio, dessa vez trabalhavam e estudavam.  Sempre foram as melhores alunas em sala. Terminaram o ginásio com 27 anos Ester e 26 anos a Creusa. As duas sempre estudaram juntas. Assim tinham uma a outra de companhia.

Com 28 e 27 anos, Ester e Creusa fizeram um novo teste, um vestibular para estudar, e mais uma vez passaram com nota máxima. Começaram a estudar na Escola Normal Presidente Castelo Branco.

Lembram que seus estudos eram feitos à luz de velas, lamparinas, pois nessa época não tinham energia em casa, somente nos postes das ruas.

Trabalhavam pela manhã, com seu primo/irmão Zé Gomes na quitanda e também fazendo costuras, cuidavam da alimentação, cozinhavam a lenha, e depois iam para a escola Normal.

Veio a formatura. Relatam que foram as 2 primeiras professoras negras do Bairro Rosário. Contam que as outras alunas foram para o Clube festejar, mas elas preferiram ir para casa, no Bairro Rosário. O Zé Gomes era o padrinho de formatura da Creusa Gomes e Raimundo de Zefinha padrinho da Ester Gomes. Quando chegaram no trajeto para casa, tiveram uma surpresa, muitas pessoas (e amigos do falecido pai Mariano) as estavam esperando para comemorar esse momento de orgulho de serem professoras, pessoas que viram o crescimento e esforço de ambas para estudar e trabalhar sem pai.

Ester e Creusa  conquistaram suas formaturas em uma época difícil, onde poucos negros poderiam cursar uma escola básica, mas elas venceram, e realizaram seus sonhos. Se formaram na Escola Normal Presidente Castelo Branco. Tornaram-se uma das 5 primeiras Professoras nomeadas pelo Estado (na cidade de Oeiras). 

Ao terminar seus estudos, Ester e Creusa Gomes fizeram Curso de Efetivação, que tinha na época, para poder enfim ministrar aulas.

O trajeto educacional de Ester e Maria Creusa, mesmo diante a tantos obstáculos, teve uma vitória, porque ambas nunca esqueceram dos ensinamentos do pai. Honraram seu desejo de ver as filhas formadas, (apesar que o sonho dele era que elas fossem médicas). A profissão de educadoras era feita com amor, dedicação e ética.

Hoje também é, com muito orgulho, são Sócias Aposentadas da União Artística Operária de Oeiras. Herdaram de seu pai Mariano Gomes, que foi Sócio Fundador.

Receberam prêmios de Professor Nota 10, e Mulheres de Expressão, promovidos pelo Mural da Vila.

MARIA CREUSA DOS SANTOS VIEIRA, nasceu no dia 28 de novembro de 1935. Filha de Mariano Gomes dos Santos e Hortalina da Silva da Conceição.  Viúva do Sr.Inácio Vieira da Silva (saudoso Inácio 30). Tem 3 filhos: Maricleyd dos Santos Vieira (Pedagoga e Especialista em Psicopedagogia), Pedro Cláudio dos Santos Vieira (Dr. Engenheiro em Estruturas) e Marinacy dos Santos Vieira (Profª. Especialista em Letras Espanhol; Graduada em História). Tem apenas 01 neto, Elias Victor Meira Vieira (filho do Pedro Cláudio). 

Maria Creusa trabalhou primeiramente na Escola Marcos Parente (antigo Círculo Operário de Oeiras) onde foi uma das fundadoras dessa escola.

No ano de 1966, na U.E. Visconde da Parnaíba foi uma das professoras oficiais e fundadoras. Trabalhou 18 anos da 1ª a 4ª série inicial da época. Algumas de suas colegas de trabalho: Ester Gomes, Leonilia de Carvalho (Leó), Onezinda, Cremilda, Dorinha e outras.

Em 1970, já casada, mudou-se para Teresina trabalhando na U.E. Oscar Clarck. Em julho de 1973 retorna para Oeiras e novamente professora na U.E. Visconde da Parnaíba.

Em 1987 trabalhou na U.E. Costa Alvarenga, na qual se aposentou no ano de 1991 com uma grande festa feita por seus alunos e colegas professoras.

Durante o período de professora, tinha um acompanhamento e carinho além de educadora, as crianças eram alfabetizadas na 1ªsérie e só saiam de suas mãos depois da 4ª série. Tratava seus alunos como mãe, cuidava de suas necessidades, como relata que alguns alunos comprava fardamento, comprava remédios, tratava com muita dedicação. As salas de aulas eram nessa época com 30 a 45 alunos.   

Alguns alunos de sua trajetória, e que ainda hoje tem amor e atenção: Carlos Lameck Valentim, Carlos Edilberto, Nelson Júnior, Francisco Guedes, Dr. Hidelberto Alves, Marileide Pinheiro, Dr.Francisco das Chagas (Dr.Chiquim), Dr.Zequinha, Aparecida Cavalcante, Adriana Gomes, Deuzinha Torres, Maria das Mercês (Mercês Calçados), Professora Maria do Socorro Santos.  São muitos alunos que não caberiam aqui nessa lista, onde a Professora Maria Creusa educou para a vida, alunos brilhantes. A mesma tem a imensa alegria e satisfação de ter contribuído com a educação de tantas pessoas. Sempre acontece de alguém aparecer à sua casa dizendo ser um ex-aluno, que a considera como mãe. Que ainda lembram de seus ensinamentos. 

Aos 85 anos Creusa Gomes relembra de sua trajetória da infância até hoje, de sua dedicação e empenho em nunca desistir de estudar, mesmo em meio aos problemas e dificuldades que ela e sua irmã enfrentaram. Lembra dos conselhos e dedicação do seu pai.

 

ESTER GOMES DOS SANTOS SOUSA nasceu no dia 09 de junho de 1934, filha de Mariano Gomes dos Santos e de Hortalina Silva da Conceição.

Ficou viúva, muito jovem, de João Pereira de Sousa Filho, e assim teve que trabalhar e criar seus filhos sozinha. Ester Gomes teve três filhos: Jadson Santos (Prof. Especialista em Ed.Física pela UFPI), Jadilson Gomes (Graduado em Matemática e Técnico Agrícola) e Jacqueline Gomes (Profa. Especialista em Psicopedagogia). Tem 11 netos e 06 bisnetos.

Foi umas das fundadoras da escola Visconde da Parnaíba, onde trabalhou por muitos anos como professora, e também foi diretora.

Aos seus muitos alunos dedicou atenção, respeito, educou para que todos pudessem adquirir conhecimentos e uma formação que trouxesse êxito e satisfação.  

 

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