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Novembro Negro

REPRESENTATIVIDADE: Celuta Mendes: a mulher que soube ser resistência

Dona Celuta é um dos nomes representativos do bairro Rosário.

29/11/2020 16h12Atualizado há 2 meses
Por: Lameck Valentim

No mês de novembro, em que se comemora o mês da Consciência Negra, o Tô no Mural realiza a série de matérias REPRESENTATIVIDADE, em que conta histórias de homens e mulheres negros de Oeiras e região.

Apresentamos hoje a história de CELUTA MENDES, conhecida por todos os oeirenses como Dona Celuta do Rosário (in memoriam).

 Mulher negra, do bairro Rosário, sendo uma das figuras mais conhecidas deste bairro, onde conquistou o carinho, respeito e admiração de todos.

Celuta Mendes: a mulher que soube ser resistência

Por Irno Mendes

 

Em 1930 Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi coroada padroeira do Brasil, a mãe negra do povo brasileiro. Naquele mesmo ano, no alto da doce colina do bairro Rosário, em Oeiras (PI), nasceu sua filha e devota, ternamente conhecida por todos os oeirenses como Dona Celuta do Rosário (in memoriam). Caçula de seis irmãos ela é filha do saudoso casal José Mendes da Costa (in memoriam) e Frutuosa Mendes Divina (in memoriam) e nasceu no mês em que é celebrada nacionalmente a Consciência Negra, mais precisamente no dia 02 de novembro – dia de Finados – mostrando que, a despeito da morte, a vida sempre prevalece.

 Apenas 42 anos antes do nascimento de Dona Celuta, no dia 13 de maio de 1888, o Brasil pôs fim oficialmente à nefasta prática de escravização do povo negro. Uma data símbolo de um ato histórico, cercado por controvérsias, que posteriormente daria nome a diversos logradouros públicos por todo país, como a Rua 13 de Maio onde Dona Celuta construiu sua família e que está localizada no tradicional e histórico Rosário, bairro sinônimo de resistência da população negra piauiense. No alto da doce colina ela passou sua infância, adolescência e vida adulta e foi onde, acima de tudo, fincou suas raízes e tornou-se Dona Celuta do Rosário.

 Família e Fé

 A família e a fé sem dúvidas eram as duas principais forças que moviam Dona Celuta. Ela casou com Miguel Pereira da Cruz, mas logo veio a viuvez precoce. Católica fervorosa, dividiu sua vida entre os cuidados com filhos, netos e sobrinhos e seu desvelo a Deus, à Santa Sé e seus santos. Devota de Nossa Senhora do Rosário, integrou o grupo religioso denominado Legião de Maria, além do Sagrado Coração de Jesus – dois grupos nos quais fez grandes amizades. Como legionária de Maria ela fez da fé seu escudo e sua arma contra as adversidades postas em seu caminho e foi esta fé inabalável no sagrado que lhe deu forças para nunca esmorecer diante das dificuldades; foram sua crença e força espiritual que lhe deram a sabedoria necessária para transformar pedras no caminho em simples grãos de areia e a perceber que os gigantes muitas vezes não passavam de inofensivos moinhos de vento.

 Assim como sua mãe Frutuosa, ela teve seis filhos: Sônia, Sandra, Solange, Sumária, José Benedito e José Neto (in memoriam). Além dos filhos biológicos, também cuidou da prole da sua irmã Durvalina, após esta falecer prematuramente, adotando e acolhendo em seu seio maternal os sobrinhos Gerson, Maria Eulália (in memoriam) e Maria do Espírito Santo, as duas últimas carinhosamente e respectivamente conhecidas por Lainha e Pituquinha.

Para cuidar de todas as suas crianças Dona Celuta contou com o apoio incondicional de Dona Frutuosa, da sua tia Joana (in memoriam) e do seu pai José Mendes com os quais residia. Também não podemos deixar de citar o apoio e esteio que ela recebeu do seu cunhado Antônio, popularmente conhecido como Antônio de Gerson (in memoriam), viúvo de Durvalina. Ao longo dos anos ela viu a família crescer e multiplicar-se. Seus filhos fizeram dela avó de 15 netos. Além disso, ela também teve a alegria de ter 11 bisnetos.

 Vinda dos Céus

 Maria, mãe de Jesus Cristo, é apenas uma, mas conhecida por inúmeras designações como Nossa Senhora do Rosário, da Vitória e da Conceição. Dona Celuta, da mesma forma, foi uma matriarca com várias denominações: Utinha, Mãe Uta, Mãe da Casa de Vó, Vó Celuta, Tuúta, ou, simplesmente, Dona Celuta do Rosário, são alguns dos nomes pelos quais ela era amorosamente chamada por seus filhos, sobrinhos, netos, amigos e todos aqueles que fizeram parte do seu convívio. Com todos, ela construiu uma relação especial expressada em forma de vocativos afetuosos que a tornava única para cada um deles.

 O nome Celuta, pouco usual, por si só já fazia dela alguém singular. Ele foi escolhido por seu pai, José Mendes, que era professor, e é uma variação da palavra Celica que em latim significa Vinda dos Céus.

 Pai amigo

 Dona Celuta e seu pai, por sinal, construíram uma relação marcada pela cumplicidade. Mais que pai e filha eles eram amigos, uma amizade fortificada pela fé e religiosidade. Zizinho, como ele era chamado por sua esposa Frutuosa, proveu, em seu lar, durante toda sua vida, o amparo e acolhimento necessários para a filha caçula e seus netos.

Quando o pai de Dona Celuta estava em seu leito de morte, seu último pedido foi que chamassem com a maior brevidade possível a filha amiga para que ela estivesse ao seu lado no momento do desencarne. Era por volta de 10h da manhã quando ele pressentiu que tinha pouco tempo de vida e desejava que na hora da sua partida ela rezasse o terço Mariano. Nesse momento Dona Celuta estava no mercado público municipal de Oeiras trabalhando, vendendo frutas e verduras. Mas assim que tomou conhecimento do chamado do seu pai amigo voltou para casa. Tão logo chegou e começou a entoar os primeiros mistérios, o professor José Mendes despediu-se de todos que estavam presentes e posteriormente faleceu enquanto sua filha orava por sua alma.

 Resiliência

 A pressa e urgência pela vida eram tão inatas à Dona Celuta que, segundo relatos da época, já teria nascido com um dentinho – fato curioso e incomum para um recém-nascido que comumente só começa a ter os primeiros dentes depois de alguns meses de vida. Essa é uma curiosidade sempre lembrada por toda família como uma mostra da mulher negra que quebrou paradigmas.

Resiliente, seguindo o exemplo de Esperança Garcia, resistiu às dificuldades, preconceitos e demais mazelas que uma mãe, mulher preta e de origem humilde era obrigada a enfrentar numa sociedade marcada pelo racismo e preconceito de classe e, mais que isso, fez da sua esperança verbo e esperançou por dias melhores para ela e sua família.

Num país que ainda carrega o ranço e cicatrizes de 388 anos de escravidão, o simples fato de uma mulher negra sobreviver e se destacar na sociedade já era, indubitavelmente, uma forma de resistência. E foi imbuída por essa coragem e desejo de resistir que Dona Celuta, orgulhosamente negra do Rosário, enfrentou as dificuldades da vida para que pudesse cuidar de si e dos seus.

Foi graças ao seu talento para ser resistência, que Dona Celuta teve força suficiente para suportar o impacto de eventos que marcaram tragicamente sua família. Nesses momentos, mesmo tomada por dores lancinantes, experimentadas por poucas pessoas na vida, e capazes de destruir o espírito de qualquer ser humano, ela não só resistiu como também foi o bastião de resistência de todos a sua volta.

 Coragem e força para trabalhar

 O trabalho sempre fez parte da vida de Dona Celuta. Antes do casamento exerceu a profissão de babá nas casas das famílias mais abastadas da primeira capital do Piauí. Quando já era viúva não se deixou abater pelas dificuldades e mostrou que além de resiliente também era uma mulher polivalente: trabalhou como lavadora de roupa, vendeu comida no mercado público de Oeiras e durante o fim de semana, religiosamente, vendia leitão assado oriundo do pequeno rebanho suíno que mantinha no quintal de casa. Além disso, no período eleitoral, era responsável por fazer a comida que iria alimentar parte dos eleitores e lideranças que faziam a política de Oeiras da época.

 Uma mulher de amizades

 Quem conheceu Dona Celuta sabe que uma das coisas que ela mais valorizava na vida era uma amizade sincera e verdadeira. Entre os muitos amigos que fez na juventude está o casal formado pelo senhor João Santos e a senhora Maria Santos, que, em janeiro de 1967, migraram da cidade de Santa Cruz do Piauí para a Rua 13 de Maio em Oeiras em busca de uma vida melhor para eles e seus filhos.

Assim que chegou ao Rosário, o casal estabeleceu um vínculo de amizade com Dona Celuta. Dona Maria recebeu muitos conselhos e ensinamentos da nova amiga que até hoje são de grande utilidade em sua vida. Seu marido, caixeiro viajante e sanfoneiro, era popularmente conhecido por seu João Caititu. Por conta da profissão, seu João precisava sempre estar percorrendo as estradas a trabalho e nesses momentos de ausência Dona Maria sabia que poderia contar com suporte da amiga Celuta.

 O vínculo entre as duas famílias, bastante sólido e harmônico tal como as notas da sanfona de seu Caititu, permanece vivo até os dias de hoje e não foi enfraquecido mesmo após o casal ter partido de Oeiras em 1985. Depois que partiram da velha capital do Piauí, Dona Maria e seu João Caititu fincaram raízes na cidade de Timon, no Maranhão; mas, mesmo morando em cidades distantes, os amigos mantiveram contato e sempre que possível se encontravam, oportunidade em que renovavam o vínculo de amizade.

Duas grandes amigas que também marcaram a vida de Dona Celuta foram Dona Maria Sobreira (in memoriam) e Dona Maria de Lourdes (Bia). Mesmo com idade avançada, Dona Celuta não deixava de, sempre que possível, estar na companhia delas para que pudessem conversar e manter vivo o laço quase fraternal que as unia, forjado na juventude, e fortalecido ao longo dos anos. As três compartilhavam inúmeros interesses entre eles o culinário. Elas gostavam de se reunir aos finais de semana para fazer bolos e sabiam que a amizade, assim como as melhores receitas, é feita com ingredientes de qualidade e, certamente, a delas era composta por porções generosas de ingredientes como admiração, respeito mútuo e companheirismo.

Ao longo dos seus 89 anos Dona Celuta soube cativar e construir laços com todos que fizeram parte de sua história, independente do estrato social. A importância de uma boa amizade alicerçada em confiança e respeito recíproco é um valor que ela passou para todos os seus descendentes por meio do exemplo das relações que soube construir, preservar e que hoje também são amigos dos seus filhos, netos e sobrinhos.

 Pra lá e pra cá

 A vida de cada ser humano é como um livro com começo, meio e fim. E o epílogo da história da mulher que soube ser resistência durante seus 89 anos ocorreu no dia 25 de abril de 2020. Nessa data Dona Celuta sofreu uma parada cardíaca encerrando seu ciclo neste plano.

Desde sua partida está fazendo muita falta para todos aqueles que ela cativou vê-la em sua cadeira de balanço, na porta de casa, como ela gostava de dizer "pra lá e pra cá". Em sua cadeira ela balançava enquanto conversava com familiares, vizinhos e amigos. Está fazendo falta para todos sentar com ela nas calçadas, ouvindo suas histórias e ensinamentos. Afinal, mesmo com idade avançada, ela permanecia bastante lúcida e ciente de si.

 Sempre, ao tomar conhecimento que alguém da família que mora fora ia chegar, ela permanecia vigilante e se recusava ir dormir enquanto não tivesse certeza que o viajante tivesse chegado em paz e segurança. Essa é mais uma memória que os filhos, netos e sobrinhos vão sempre recordar com ternura.

Mas, vale ressaltar, que são justamente essas boas recordações que consolam familiares e amigos e são elas que vão ocupar o lugar preenchido pela dor da perda. Uma dor também mitigada pelo fato de seu falecimento ter ocorrido no conforto do seu lar, de maneira serena e tranquila ao lado da filha Sumária, com quem residia, e que sempre esteve ao lado da mãe cuidando do seu bem estar.

Por fim, não resta dúvida, que Utinha, Mãe Uta, Mãe da Casa de Vó, Vó Celuta, Tuúta, ou, simplesmente, Dona Celuta do Rosário permanece e permanecerá viva na memória e nos sentimentos de todos que fizeram parte do enredo da mulher que foi resistência até o último momento de sua vida.

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