Brazitaly
Mundo cidadão

Morte de Maradona e o preconceito contra o dependente químico

Por José Osmando de Araújo/ Mundo Cidadão

01/12/2020 15h38
Por: Lameck Valentim
Fonte: Mundo Cidadão/José Osmando de Araújo- Meio Norte

A morte, na semana passada, de Diego Maradona, o grande astro do futebol internacional, comandante da vitória argentina na Copa de 1986 do México, fez explodir uma enorme comoção no país vizinho e uma grande tristeza mundo afora, mas serviu, infelizmente, para expor de maneira clara o olhar enviesado e preconceituoso de significativa parte da imprensa brasileira contra esse espetacular jogador.

Maradona possivelmente não jogou tanto quanto Pelé, tido como o Rei do Futebol, ou mesmo mais do que seu conterrâneo Messi, e pode até ter apresentado futebol inferior a Zidane ou Cruyff, mas nenhum artista da bola em todo o planeta alcançou o nível de adoração quanto ele, tido na Argentina como um Deus, e aclamado pelo povo, sobretudo pelas pessoas pobres, como um verdadeiro pai, pois carregava seu espetáculo em campo sempre olhando para os mais desprotegidos, num sinal de vínculo indissociável de suas origens, num permanente ritual de agradecimento aos seus torcedores e fãs.

Mas o que vi em 25 de Novembro, nos noticiários sobre a morte e nas intermináveis transmissões ao vivo de quase todas as redes de televisão do Brasil, foi uma obsessão desmedida de apresentadores, repórteres e analistas, de focar, insistentemente, em duas condições da vida de Maradona: “suas posições políticas controversas, polêmicas, erráticas”, e sua “entrega às drogas”, num referência ignorante e perversa ao fato de o jogador haver sido colhido por narcóticos, e deles tenha virado dependente químico.

Esquecem- se não bastassem os feitos fenomenais do jogador em campo-, que Maradona não é louvado apenas por isso, mas muito por sua trajetória fora dos gramados, com os fortes embates que estabeleceu contra os poderosos da política, notadamente no período truculento da ditadura militar.

E daí?

Ter opção política pela esquerda, admirar e apoiar líderes continentais do socialismo, num claro esforço contra as desigualdades sociais e a concentração de poder e riqueza nas mãos de poucos, o tornam o ser “errático”, de posições “controversas, polêmicas”, que essa imprensa aponta?

Penso ser oportuno lembrar aqui o que diz o antropólogo e professor Edison Castaldo, pesquisador do Centro de Estudos de Pessoal e Futebol: “Ele é uma espécie de liderança popular, que veio do povo e não se esquece de onde saiu. Isso é uma marca central no caráter do Maradona”, uma conclusão de suas pesquisas voltadas para as relações entre o futebol e a identidade nacional. E é dessa forma que os torcedores argentinos interagiam com a figura do jogador, diante da sua dedicação à atuação na política.

Para Gastaldo, a identificação dos torcedores com Maradona é produto de uma circunstância rara que reuniu alto desempenho futebolístico e formação política bem apurada em um mesmo jogador. Num mercado que submete atletas ao “cala a boca e joga”, o astro argentino aparece como personalidade ímpar, que desagradou elites europeizadas e foi perseguido por suas manifestações,conclui Gastaldo.
Se essa manifestação do antropólogo explica por que tantos se apressam em condenar as posições políticas de Diego Maradona, isso, embora, não responda ao outro viés de preconceito, o que se relaciona às drogas.

Num país em que milhares e milhares de jovens foram tragados pelo narcóticos, muitos levados à morte prematura, uma tragédia que está tomando, progressivamente, também as crianças, expor ao público questão de tamanha magnitude criminalizando a vítima, é simplesmente uma estúpida irresponsabilidade.

Lembro, oportunamente, dados da Sociedade Brasileira de Pediatria: as hospitalizações de crianças na faixa de 10 a 14 anos motivadas por uso de psicoativos, cresceram 41% na última década. Ansiolíticos, sedativos, maconha, alucinógenos, inalantes e tabaco foram causa de 717 internações, dessa faixa de idade, na rede pública em 2018.

Droga é, portanto, muito claramente, uma questão de saúde pública, e assim deve ser tratada, inclusive na imprensa, com respeito, preocupação e responsabilidade. Muito além dos malefícios que as drogas podem trazer ao corpo e à vida do usuário, quem encara a batalha contra o vício ainda tem um grande desafio pela frente: vencer o preconceito contra dependente químico. Afinal, infelizmente, a nossa sociedade ainda conserva uma visão muito errada sobre a doença e nem sempre aceita a situação de forma inteligente e consciente, muitas vezes, destilando ódio, desprezo e desapreço pela pessoa.

O fato é que todos estamos suscetíveis a isso, e os vícios podem começar em atos simples, desde a cervejinha com os amigos da esquina até o uso descontrolado de determinado medicamento. Ou seja, a dependência química não se limita apenas às drogas mais pesadas e de maior risco. O alcoolismo advém do uso de bebidas, consideradas lícitas, dentro da própria família.

A falta de informação ou deliberada má vontade - em outras palavras, preconceito- , constituem entraves perigosos ao tratamento das drogas. E quando isso ganha corpo na imprensa, na contramão do seu papel informador e formador, aí a coisa ganha gravidade. Quando a imprensa age desse modo, ignorando que o dependente é vítima, que o problema precisa urgentemente ser tratado como necessidade de saúde pública, só faz aumentar o modelo coercitivo do Estado, que insiste em combater as drogas com repressão e violência.

Uma violência que diariamente mata milhares por esse país afora.

Uma lástima.

Nenhumcomentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias