Brazitaly
Mundo cidadão

Cuidar do outro, o primeiro sinal de civilização de um povo

Por José Osmando de Araújo/ Mundo Cidadão

15/12/2020 15h12
Por: Lameck Valentim
Fonte: Mundo Cidadão/José Osmando de Araújo- Meio Norte

Num desses dias da semana passada, recebi e compartilhei um vídeo produzido por Marcos Piangers, um articulista, escritor e palestrante bastante conhecido, autor do best-seller muito festejado, intitulado O Papai é Pop. Ele conta que estudava com as filhas, fazendo pesquisas no google, lendo livros, interessados e saber mais sobre história, a origem das civilizações, quando se deparou com uma entrevista de uma antropóloga, na qual um aluno lhe pergunta o que determinava para ela que um povo era civilizado, se os escritos, a arte, a cultura, o esporte, uma grande invenção, e ela lhe responde: “Um fêmur cicatrizado”.

E Marcos Piangers interpreta o que disse a antropóloga: Na realidade, o primeiro sinal de civilização de um povo é a sua capacidade de cuidar do outro, de olhar com interesse para as suas dores, preocupações, necessidades e sonhos. O fêmur cicatrizado expressa exatamente o contráriodo que acontecia antigamente quando alguém se machucava, caía de um barranco, escorregava em pedras à beira de uma rio, e quebrava a perna. A consequência natural é que essa pessoa, pela ausência de um remédio que lhe curasse a ferida, podia fatalmente chegar à morte. Isso porque não existia tratamento.

Foi necessário que a ciência, com olhar fixo no bem-estar e na cura das pessoas, inventasse medicamentos e meios capazes de aliviar a dor e o sofrimento dos seres humanos história à frente, curando-os dos males que os acometiam. Não é sem razão que uma pesquisa desenvolvida pelo Museu da Ciência de Londres, como parte das comemorações do seu centenário de fundação, indicou, num leque de 10 grandes inventos científicos, ouvidas mais de 50 mil pessoas, que as três principais descobertas da humanidade foram o Raio X, a Penicilina e a Dupla Espiral de DNA, ou seja, três inventos nascidos literalmente da preocupação de cuidar do ser humano, curar suas dores e sofrimentos, e fazê-lo sobreviver com felicidade.

A pesquisa do Museu britânico vem ao encontro da resposta dada pela antropóloga, de que o primeiro sinal de civilização era o “fêmur cicatrizado”, pois antes de a ciência criar analgésicos, anti-inflamatórios, antibióticos e aparelhos capazes de ver, por imagem, o que se passava dentro do organismo humano, as pessoas simplesmente não se curavam e muitas iam à morte. Aí está presente, portanto, o significado extraordinário do cuidar, que se dá, num sentido mais amplo, não apenas na assistência prestada pela Medicina e outras ciências da saúde, mas de maneira mais abrangente, pela solidariedade humana, pelo olhar que abraça e alivia.

Isso vai além da ideia de confundirmos saúde – que exige educação e comportamento – com medicina –que exige ciência, dinheiro e tecnologia, explica o sociólogo Zygmunt Bauman: “Cuidar dos outros – do próximo e do distante – é saber criar e fortalecer vínculos emocionais, fazer amigos, parcerias estáveis e zelar pelos bens públicos e pelo planeta. E isso se cria na família e em casa”.

Temos que mudar o paradigma para chegar a um nível superior de humanização. Os valores mais importantes serão saber cuidar, fortalecer relacionamentos e trocar com os demais. “A maior expressão de amor é o cuidado”, afirma o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman.

Para ele, as pessoas já não se relacionam mais pelo valor natural, algo próprio do ser humano. As relações humanas, atualmente, estão marcadas pela objetividade, ou seja, por aquilo que ela representa, por aquilo que ela possui ou pela posição que ocupa na pirâmide social. O modo de vida que o homem atual leva desprende-se de todos os outros, de uma maneira que não tem precedente.

Vive-se em uma época de grande barbárie e de pouca solidariedade. São tempos de alta competitividade guiados pela lógica da acumulação de bens e das aparências. Em nome dessa nova ideologia, os indivíduos se permitem agir passando por cima de valores que sequer chegaram a formar. O que importa é ser reconhecido, ser admirado, ter acesso a uma infinidade de produtos e serviços e usufruir o máximo do prazer.

Será que existe uma saída, uma cura, um remédio para todo esse mal-estar da sociedade e do homem contemporâneo, indaga Bauman?

Sem querer parecer ingênuo ou alienando, pensamos que sim! As palavras do teólogo e filósofo brasileiro Leonardo Boff apontam um caminho possível. Diz ele:

O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais do que um ato, é uma atitude. Portanto abrange mais do que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro”.

A arte de cuidar do outro seria a compreensão de que a vida é feita de paradoxos e, para trilhar o caminho da felicidade, o primeiro passo é querer bem ao outro. O segundo passo consiste em aceitar o outro como ele é, durante muito tempo, para que o outro seja feliz. O terceiro passo consiste em querer aprender sempre com o outro, que é diferente de mim e que por isso mesmo merece ser respeitado. Enfim, a arte de cuidar do outro é o paradigma contemporâneo do ser humano cuidando do próprio ser humano.

Penso ser oportuno lembrar o que nos diz, em seu artigo “ A forma ética do cuidar é ver o outro, a sua existência”, a pesquisadora Regina Célia Simões de Mathis:

E aprendi que se depende sempre de tanta, muita, diferente gente. Toda pessoa tem sempre as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas. E é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá. E é tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que se pense estar.”

Como bem nos lembra a Campanha da Fraternidade, da Igreja Católica, deste ano de pandemia, “próximo não é somente alguém que está ao meu lado, mas aquele do qual me aproximo para ajudá-lo. Essa tomada de posição de cuidado manifesta a atenção ao ver, compadecer e cuidar.

Concluo lembrando, Leonardo Boff, em seu livro “Saber Cuidar”, de 1999: “O cuidado não é uma opção. Aprendemos a cuidar ou perecemos. Temos que mudar o paradigma para chegar a um nível superior de humanização. Os valores mais importantes serão saber cuidar, fortalecer relacionamentos e trocar com os demais. A maior expressão de amor é o cuidado”, afirma.

 

Nenhumcomentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias