Samuel Valentim
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Mundo cidadão

Só a gratidão pode nos salvar da inveja

Por José Osmando de Araújo/ Mundo Cidadão

24/12/2020 10h53
Por: Lameck Valentim
Fonte: Mundo Cidadão/José Osmando de Araújo- Meio Norte

Com essa aproximação de fim-de-ano -aliás um ano rigorosamente atípico, pleno de adversidades com as quais jamais havíamos imaginado-, me veio a ideia de conversar um pouco sobre dois sentimentos marcantes nas nossas vidas, embora antagônicos nos seus significados e efeitos, mas muito presentes, quase indissociáveis ao viver dos humanos.  

Falo de Inveja e Gratidão, a primeira, um pecado miserável, que vejo parecendo bastante presente, voluntarioso e crescente na sua arrogância e cegueira, sobretudo em momentos dramáticos de incertezas e dor, como afirmar a expressão do grande filósofo alemão Arthur Schopenhauer, segundo o qual “não há ódio mais implacável do que a inveja.” 

Expressando-se como um algo invisível e dissimulado, como a descreve Zuenir Ventura em seu livro “Inveja, o Mal Secreto”, da série Plenos Pecados, da editora Objetiva, em 1998, é o sentimento que, na visão de Ovídeo, habita no fundo de um vale onde jamais se vê o sol. 

Francesco Alberoni, sociólogo italiano, um notável defensor da solidariedade social, afirma que podemos descrever o nosso ódio, o nosso ciúme, os nossos medos, as nossas vergonhas, ”mas não a nossa inveja”. 

Isso, de fato, é que torna a inveja um mal secreto, tão bem descrito por Zuenir, que vai além: segundo ele, a inveja tem péssima reputação. É dissimulada, triste, inconfessável. Secreta, prefere ocultar-se. Perigosa, lança olhares de soslaio. Arruda, sal grosso e olho-de-boi são algumas das armas usadas contra ela. 

E vai à história mais antiga para mostrar como as pessoas inventavam mecanismos para dela se livrarem ou com ela conviveram. “Na "Bíblia", é origem do mal. De Satã contra Deus. De Caim contra Abel.”, diz Zuenir. Em "Mal Secreto", Zuenir Ventura, afirma que a inveja é sobretudo o sentimento do outro. E pode matar, em mais de um contexto. 

A psicanalista austríaca Melanie Klein, falecida em 1960 e que nos legou uma obra respeitável, traçou um paralelo bastante significativo e valioso sobre esses dois sentimentos que habitam o ser humano -gratidão e inveja-, apresentando-nos como “divergentes operantes desde o nascimento, tendo como primeiro objeto o seio.” 

A inveja age não apenas nas situações de privação, mas também na formação do caráter, de forma inconsciente. Pode atuar, inclusive, na reação terapêutica negativa, dando limite para o êxito analítico. 

Associando, portanto, tanto o sentimento ruim, a inveja, quanto o bom sentimento, a gratidão, à formação da criança desde o seio materno, Melanie Klein expressa que dos principais derivados da capacidade de amar é o sentimento de gratidão. É o fundamento da apreciação do objeto bom nos outros e em si mesmo. O bebê só pode sentir satisfação completa se a capacidade de amar é suficientemente desenvolvida. Sendo assim, a satisfação é a base da gratidão. Essas experiências constituirão toda a felicidade subsequente, pois tornam possível o sentimento de unidade com outra pessoa, de ser plenamente compreendido, o que é essencial para toda a relação amorosa ou de amizade.  

Contrariamente ao que penso sobre a inveja, tenho por convicção que a gratidão nos traz incontáveis benefícios, alguns deles até inimagináveis, como a melhoraria da saúde física e mental, a elevação da nossa autoestima, o aumento no nível de bem-estar espiritual, além de nos abrir portas para novos e bons relacionamentos, fundados na confiança, na reciprocidade, na fraternidade e na alegria.

Fortalece-nos, também, o espírito da humildade, fazendo-nos compreender que todos temos virtudes e defeitos, fazendo-nos aprender a valorizar o lado bom do outro e minimizar suas falhas, o que, por consequência, cria ambiente propício ao perdão, à aceitação do outro com suas virtudes e imperfeições, ingredientes necessários para que criemos relacionamentos saudáveis. 

A gratidão é algo que pode e deve ser criado, desenvolvido e aperfeiçoado por qualquer pessoa, desde as fases iniciais da infância e se fortalece no exercício diário, interminável, das trocas, da admiração, do estímulo às capacidades do outro, do olhar carinhoso, do abraço gostoso, da fraternidade e do respeito à individualidade da outra pessoa.  

Gratidão é algo que começa em casa com um bom dia, um sorriso, um aperto de mão, um abraço e um pensamento positivo pela presença da paz e da tolerância. 

E que se amplia no trabalho, nas ruas, em todos os nossos ambientes de relações. É ter um olhar de cumplicidade com a natureza, sabendo da importância que a água, os ventos, a chuva, as árvores, os rios, os animais, representam nas nossas vidas. E agradecer por eles não nos faltarem. 

Gratidão é saber que nunca estamos sós, de que não podemos ficar olhando para o próprio umbigo, e que em algum lugar haverá sempre alguém que nos quer bem, mas também alguém que não tem ninguém e que precisa da nossa mão. 

Gratidão é amar e ser infinitamente receptivo ao amor. 

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