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Kátia Tapety: a primeira transexual eleita para cargo eletivo no Brasil

Kátia foi derrotada nas eleições 2020 e culpa a compra de votos. Kátia Tapety é um marco para o Piauí e o Brasil e virou até documentário.

27/12/2020 16h23Atualizado há 3 semanas
Por: Lameck Valentim
Fonte: Nossa Gente/Meio Norte

Por Lucrécio Arrais - Do Nossa Gente/Meio Norte

 Um marco na história do Piauí

 Kátia Nogueira Tapety nasceu no dia 24 de abril de 1949. Aos 71 anos de idade, a figura política piauiense é um marco na história nacional. Em 1992, em Colônia do Piauí, ela foi a primeira mulher transexual eleita para um cargo político, sendo vereadora por três mandatos e depois vice-prefeita.

Em 2020 concorreu, mais uma vez, à Câmara Municipal do município onde construiu a própria vida, saindo derrotada nas urnas. Mas entre eleições ganhas e perdidas, a verdade é que Kátia é um marco para o Piauí e todo o Brasil em um momento em que a diversidade, mais do que nunca, precisa ser colocada em pauta.

Mito "Kátia" virou documentário

O mito “Kátia” virou até documentário, dirigido por Karla Holanda. A produção, que vez ou outra é exibida em canais de televisão por assinatura, mostra a trajetória política do então José. Vinda de família tradicional na política, ela foi eleita vereadora por três vezes consecutivas, sendo sempre a mais votada. Entre 2004 e 2008 foi vice-prefeita de Colônia do Piauí.

Além disso, ocupou cargos políticos importantes e fez a primeira parada gay de Oeiras, chamando LGBT de toda a região para uma grande festa, com direito a trio elétrico e muita animação. De bandeira com as cores do arco-íris hasteada, Kátia não é mulher de discurso. A militância dela está na própria existência.

Desiludida com a política, ela desabafa para NOSSA GENTE que agora vai ficar nos bastidores fazendo apoios pontuais e que não será mais cabeça de chapa ou candidata a vereadora. Kátia afirma que a política no município em que vive é marcada pela compra de votos e que isso a impede de chegar novamente a um cargo público.

 Pretende concorrer a mais cargos públicos?

Não quero mais carreira política. Dei um basta. Não quero mais saber. Tive a maior decepção da minha vida. Ouvi dos eleitores que poderiam confiar no voto, mas abriu a urna e nada. Apoio um governo,  apoio um senador, deputados. Mas eu candidata? Não quero mais. O povo manda eu ser prefeita mas não tenho recursos para segurar. Em cidade do interior tem que ter muito dinheiro. Eles pedem tijolo, bola de arame, sacos de cimento. Quem diabo aguenta? A Justiça Eleitoral não consegue empatar esses crimes.

 Quais seus planos para o futuro?

Eu vou ficar no trabalho social, como conselheira do movimento LGBT. Para mim tem sido complicado porque a cada deslocamento que vou pago com meu dinheiro, inclusive hotéis. Não tenho recebido minhas diárias. Algumas até deixei de ir porque não tinha o dinheiro da passagem.

 Mas quando a senhora decidiu entrar de fato na política?

Eu decidi entrar na política porque Colônia era povoado e foi emancipada. Como eu já fazia um trabalho pela saúde, quando não tinha nem Bolsa Família, eu mantinha o povo com meu próprio salário, então entrei de cabeça. Então quando virou cidade, eu fui a primeira trans eleita três vezes seguidas. Depois fui vice-prefeita. Nunca me deixaram ser prefeita, porque eu nunca tive recurso. O eleitor não vota por amor, eles querem saber se a barriga tá cheia e acabam se vendendo.

 A senhora vem de uma família política. Isso influenciou você?

Sim. Minha família é bem envolvida com a política. Vanessa, minha sobrinha, foi candidata a vice-governadora do Doutor Pessoa, que agora vai ser prefeito. Inclusive, queria pedir uma ajuda para ele. Eu venho de uma família essencialmente política. O prefeito que ganhou na Colônia, Selindo Carneiro, é meu sobrinho. Enfim, todo mundo está envolvido de alguma forma.

 Quando começou sua trajetória política?

Fui vereadora pela primeira vez em 1992, sendo a primeira mulher trans do Brasil a ter um cargo político. Isso rendeu muita coisa. Gravei um documentário. Fui ao Jô Soares. Fui presidente da Câmara Municipal de Colônia do Piauí. Fui vice-prefeita do município. Depois eu parei um tempo na política depois que mudei o nome. Quando fui candidata a vereador fui como José Nogueira Tapety Sobrinho. Nessa última eleição saí candidata, mas fui traída. Não fui eleita. O pessoal vota em que dá dinheiro.

 A senhora tem boas lembranças das Paradas LGBT que realizou em Oeiras?

A primeira Parada Oeiras fui eu que fiz. Fui até a quarta parada, com apoio do Wilson Martins. Eram ótimas as paradas. Eu queria até voltar, mas está tudo parado. Inclusive por conta da pandemia. Há mais de um ano que não vou em Teresina. A última vez estive com o Senador Marcelo Castro, mas nunca mais voltei porque preciso custear tudo e sai muito caro.

E como a senhora está de vida hoje?

Eu fui candidata e permaneço com meus trabalhos sociais. Hoje sou aposentada pelo Estado, mas perdi minhas vantagens e hoje passo dificuldades. Mas permaneço na militância do movimento LGBT. Também sou presidente da MOPAC (Movimento Preventivo e Assistencial de Colônia do Piauí). Eu convivi com um homem, mas não temos mais relações. Nossa relação é de amizade. Tenho dois filhos. Minha filha é Cecy Carmo, que estuda, mora com meu irmão, e meu filho é Ramon Sousa, tem 21 anos e trabalha como gesseiro em São Paulo.

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