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Por Júnior Vianna

A aventura de uma abelhinha curiosa

Por Júnior Vianna

05/01/2021 19h12Atualizado há 2 semanas
Por: Lameck Valentim

POR JÚNIOR VIANNA

 

Em um dos galhos do enorme ipê, amarelinho de flores, havia uma enorme colmeia onde moravam a abelhinha Clarita Cachos de Ouro e sua família. O Palácio do Mel como era assim conhecido, era tão grande que não havia sequer necessidade da pequenina sair de casa para brincar noutro lugar.

Clarita passava o dia todo brincando com suas bonecas de cera, eram tantas, que se diferenciavam pelos tamanhos e cores. Desde quando nasceu a abelhinha foi criada para ser a futura rainha da colmeia, eis o motivo para tanto zelo e proteção com a pequenina. Mas já de tão repetido o seu dia-a-dia e sem companhia de sua idade, a menina se sentia cada vez mais solitária.

- Poxa! Mas que chatice! Todo dia é a mesma coisa. Por que a mamãe não me deixa dar uma voltinha ou mesmo fazer amizade com os filhos das outras abelhas? lamentou Clarita olhando pela janela a paisagem em volta da colmeia.

Nesse mesmo dia, aproveitando da distração da mamãe-abelha, que se arrumava para receber a visita das primas Manduris que há muito não visitavam o Palácio do Mel do Ipê Amarelo, a abelha-menina resolveu aventurar e dar uma sobrevoada no arvoredo ao redor da colmeia. Saiu de fininho, sem que ninguém notasse sua traquinagem. Aproveitando da distração de todos, Clarita pôs-se a voar sobre os galhos mais próximos, sentia algo bom, uma sensação nunca antes vivida. Era tudo muito novo, lindo e mágico. Voava, voava e quanto mais voava experimentava um aroma bom proveniente das flores sertanejas, ao tempo que se encantava com a quantidade de cores antes vistas apenas nos livrinhos que ganhava de sua Dindinha Meloca.

Passado um pouco de sua euforia, pousou num galho de um frondoso Angico Branco e viu que estava metida em uma grande enrascada, não saberia mais voltar para casa. De onde estava, podia ver vários ipês amarelos e já não tinha mais certeza qual deles era o que ficava a sua colmeia. Sem solução para seu retorno, pôs-se a chorar. Com medo de chamar atenção, chorava bem baixinho, até que despertou a curiosidade de uma vespinha por nome Dito que passava por ali. Amedrontada, Clarita se encolheu toda e procurava não se mostrar para o pequenino maribondo.

- Qual o seu nome? indagou o marimbondinho

Em meio aos soluços e choro, a abelhinha com seu olhar miudinho, respondeu:

- Clarita!

- Mas o que você faz por aqui? perguntou Dito, outra vez.

- Ah, por que queres saber? Eu nem te conheço!  - tentou pontuar a conversa a menina

- Mas podemos nos conhecer e ser amigos, ora!

-Não sei! Você é tão estranho! Eu sou uma abelha, filha da abelha rainha da colmeia do Ipê Amarelo.

Dito riu, mas sentindo-se um pouco ofendido retrucou:

- Ora menina! Existem tantos ipês amarelos nesta chapada, pensa que é mesmo especial?

- Claro que sou especial, meus pais sempre dizem que eu serei uma rainha linda e poderosa.

- Rum! Sei não! Mas o que você faz por aqui e ainda mais chorando?

- Resolvi dar uma voltinha e acabei de me perdendo, agora não sei mais voltar para minha casa. Chorou mais uma vez a abelhinha tentando se explicar.

- Calma, não chore, vou tentar te ajudar. Desde muito pequeno sempre andei por aqui, não será difícil identificar o ipê onde fica a sua colmeia.

- Agradecida! Mas como é mesmo seu nome?

- Ah, meu nome é Benedito, mas me chamam de Dito, minha mãe me chama de Ditinho! - sorriu o marimbondinho todo envergonhado ao explicar o seu nome

- Então posso lhe chamar também de Ditinho?

- Claro que pode! Mas vamos deixar de prosa e vamos logo procurar sua casa antes que anoiteça.

Saíram então os dois conversando como se já se conhecessem há muito tempo. Sobrevoavam a chapada que aos poucos voltava a ficar esverdeada com as primeiras chuvas daquele ano. Para Clarita tudo aquilo era muito novo, já para Dito era apenas mais uma de suas andanças.

- Não esta com fome Clarita?

- Um pouco!

- Pois vamos ali, acho que sei onde tem um pé de seriguela carregadinho.

- O que é isso? – questionou Clarita

- isso o quê? - contrapôs Dito, incrédulo por sua nova amiga não saber do que se tratava.

- Seriguela. – protestou a abelhinha com ar de curiosidade

- Ah! É uma fruta, deliciosa! Tem quem goste dela verdosa, já eu prefiro ela quando esta bem madurinha e vermelhinha. Hummmm... É super deliciosa! - explicou o marimbondinho

Encontrada a serigueleira, os dois se fartaram da fruta. Clarita, a princípio fez cara de que não gostara, mas logo abriu um sorrisão para Ditinho, em sinal de aprovação. Dali os dois partiram em busca do Ipê Amarelo onde devia estar o Palácio do Mel da família da abelhinha perdida.

- Dito, estou com sede.

- Também estou! Me siga, sei onde tem um riachinho, você vai gostar, a água de lá é bem friinha.

Ao voarem pelo arvoredo os dois brincavam como se não tivessen pressa e muito menos como se um deles estivesse perdido, até que foram surpreendidos por uma voz afônica que vinha de um galho de um pé de “Maria-Mole”, era Madame Maricô, uma libélula que passava o dia tecendo fuxico e bordando a vida alheia.

- Como vocês são destemidos! Cuidado, muito cuidado pequeninos com o professor Godofredo Matulão, ele esses dias anda danado de fome e gosta muito de alimentar-se de insetos, não deem bobeira, quem avisa amigo é! – alertou a velha que de tão magrela quase não era vista entre as folhas ao mover-se em uma antiga cadeira de balanço

- Mas quem é Professor Godofredo? – indagou Ditinho

- Vocês não o conhecem?! É o professor de filosofia! O cururu mais inteligente dessas ribeiras, o moço mais culto que conheço, porém tem uma língua... Língua grande, amiguinhos, dessas de dar nó em pensamento. Acho que ele vem ai, escutem só esse barulho:

- Croac...croac...croac...

Benedito e Clarita arregalaram os olhos e amedrontados com o que ouviram, nem tiveram tempo de agradecer o alerta da bondosa libélula, saíram voada em direção a uma pitombeira, onde notavam um movimento de algumas abelhas.

- Puxa que susto hein?! Olha! Mas vamos ali, tem algumas abelhas operárias, pode ser que elas nos deem alguma informação de onde fica a sua colmeia, Clarita.

Após indagarem as abelhas operárias que ali se encontravam, nenhuma informação que pudesse ajudar fora dada, então resolveram voar um pouco mais em busca de alguma dica. Enquanto faziam a busca pela colmeia da família de Clarita, a abelhinha ia aprendendo um monte de coisa com Ditinho, que não parava de rir das indagações de sua nova amiguinha.

- Que flor linda e gigante é esta Ditinho? - questionou mais uma vez a abelhinha.

- Ah! Esta é uma flor de mandacaru!

- Manda... O quê? – recorreu a menina por uma resposta mais clara

- Mandacaru, ora! Os botões dessas flores geralmente só aparecem no meio da primavera e cada flor dura apenas um período noturno, ou seja, desabrocham ao anoitecer e ao amanhecer já começa a murchar, não sei por que essa durou tanto tempo, o povo dessa região costuma dizer que quando elas abrem é sinal de chuva.

Enquanto Ditinho explicava para Clarita sobre a flor do mandacaru, os dois foram surpreendidos por uma terrível gargalhada. Era Clotilde Tamancão uma aranha marrom, que além de feia, vivia mancando devido possuir uma pata a mais. Assustadora, trajava um vestido verde-metálico. Sem rodeios já partiu para cima dos dois amiguinhos.

- O que querem por aqui seus intrusos?! Vejo que estão bem gordinhos! Hahahaha... Estou com tanta fome! – ao tempo que falava passava a língua nos lábios

Ditinho meio que se tremendo diante da terrível Clotilde, deu uma piscada de olho para a abelhinha e num disparo só saíram voando. Na tentativa de pega -los a aranha com seus tamancões, lançou sobre os dois uma grande teia, porém errou o alvo, acertando os galhos de um de pau ferro.

- Voltem aqui seus pequeninos, a tia só quer o bem de vocês! Não fujam de mim seus sapequinhas! - gritava Clotilde tentando convencer que os dois insetinhos ficassem para ela os devorarem.

-Nossa que sustão Ditinho! Meu coração tá para sair pela boca!

- E o meu também Clarita, mas vamos logo, já esta ficando tarde. Você escutou aquele espirro?

- Que espirro?!

- Era um bode, espirrando! Toda vez que algum deles fazem isso é sinal que esta preste a chover. – esclareceu o marimbondinho

- Nossa eu não sabia disso, se bem que está com um cheirinho de chuva!

- Chuva não tem cheiro sua bobinha, esse cheirinho bom é apenas a terra molhada, veja só o nascente Clarita, esta ficando “bonito pra chover”, temos que encontrar logo sua colmeia antes que isso aconteça. – tentou ser incisivo o maribondo

- Acho que estou ficando com fome!

- De novo Clarita?! Ainda bem que estamos perto de um umbuzeiro, vamos me siga!

-  Eca! Mas é azedo isso! - reclamou a abelhinha!

- Deixe de bobagem menina, isso é muito bom, você irá enganar a sua fome até acharmos a sua colmeia. – Ditinho tentava suavizar a situação

Estavam ainda no umbuzeiro quando foram apanhados por uma chuva fina. Para evitar se molharem recolheram-se em uma cavidade da árvore. Aos poucos foi passando a garoa, e tão logo o sol voltou a brilhar.

- Estranho, chuva e sol quase tudo ao mesmo tempo! - fez cara de espanto Clarita

- “Chuva e sol, casamento de raposa!” – cantarolou Ditinho.

-Casamento de quem? – quis saber a abelhinha

-Deixa para lá menina, isso é uma longa história! Vamos que o sol já está para se pôr – apressou o marimbondinho.

- Já estou cansada, acho q não vamos encontrar a colmeia do Ipê Amarelo. Minha mãe vai ficar muito triste com o que eu fiz. Puxa vida! – pôs-se a chorar mais uma vez a abelhinha Clarita

- Não se desespere menina, olhe só o que reflete com os raios do pôr do sol? - indicava Ditinho para um grande ipê

- Os olhos de Clarita brilharam com o que via, saiu em disparada e constatou que de fato se tratava do ipê em que estava localizada a colmeia de sua família. Sequer se se despediu do novo amiguinho, tamanha a sua alegria. Porém, antes de chegar à porta principal do Palácio do Mel, percebeu o erro que acabava de cometer, então voltou e deu um forte abraço em Dito.

- Muito obrigado Ditinho! Agradecida por tudo. Vamos entrar preciso apresentar você para minha mãe.

- Melhor não, Clarita! Preciso voltar, tão logo retorno aqui para nos reencontramos, a minha mãe também deve esta preocupada com minha ausência. Vai lá, sua família e suas tias Manduris devem estar a sua espera.

Os novos amigos deram um forte abraço. Depois disso, Clarita rumou-se em direção a colmeia do Ipê Amarelo, enquanto Ditinho tomou o pôr do sol como destino.

De volta a sua residência, a abelhinha arrastou a porta principal bem devagarinho sem que outra vez ninguém a visse. Constatou que pelas gargalhadas de sua mãe e das visitantes certamente não teriam ainda sentido a sua ausência. Virou-se para ver qual a distância estava seu amigo. Tentativa em vão, encadeou-se com os últimos raios solares daquele dia. Tinha agora apenas certeza que ali uma linda amizade estava apenas começando entre uma abelhinha curiosa e um marimbondinho destemido.

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