Brazitaly
Gente de Oeiras

Marileide Dantas: “O desafio de ser uma professora negra é perceber que sua formação foi toda dentro de um sistema racista”

Marileide Dantas é professora e militante do movimento negro em Oeiras.

01/02/2021 18h03Atualizado há 4 semanas
Por: Lameck Valentim

O Tô no Mural apresenta uma entrevista com a professora e militante do movimento negro, a oeirense Marileide Dantas. Mulher negra, a professora que entende o ato de ensinar como um ato político, Marileide Dantas é formada em História e professora da Rede Estadual de Educação do Piauí e membro do Coletivo Negros e Negras de Oeiras.

Foi na condição de educadora que conheceu a Lei 10.639/2003 que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro brasileira nas escolas. Isso a deixou em festa, pois acreditava que tanto ela como seus alunos veria a história da sua gente ser contada.

A professora entende que o desafio de ser uma professora negra é perceber que sua formação foi toda dentro de um sistema racista

Confira a entrevista:

 - Conte-nos um pouco da tua trajetória enquanto professora e como começou a sua militância no movimento negro. Como essas trajetórias se juntam?

Toda minha vida estudantil foi em instituições públicas de ensino. Após ingressar  na Universidade Estadual do Piauí tive a oportunidade de passar no concurso seletivo  da SEDUC-PI para professora de história, onde trabalhei por anos com contrato até conseguir ser efetivada via concurso público. Nesse interim de tempo também atuava na educação no município de Colônia do Piauí. E foi na condição de educadora que conheci a Lei 10.639/2003 a qual tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro brasileira nas escolas. Isso me deixou em festa, pois acreditava que tanto eu como meus alunos veria a história de minha gente ser contada. Mas não foi bem assim, a lei ficou no papel e os educadores das escolas onde trabalhei, por desconhecerem a história da cultura afro-brasileira e também movida pelo racismo estrutural arraigado em cada um de nós, fizeram vista grossa. Então eu comecei a pesquisar, a ler autores negros, a buscar embasamento para trabalhar essa temática em sala de aula e acabei adepta da pedagogia antirracista, passando a militar na sala de aula desenvolvendo projetos educacionais no intuito de combater o racismo no ambiente escolar, e, posteriormente, com o advento da criação de grupo composto por negros na cidade de Oeiras, eu procurei fazer parte dessa união, participando da fundação do Coletivo Negros e Negras de Oeiras ampliando minha militância para fora dos muros da escola.

 - O que é ser mulher negra no Brasil e no meio em que você vive?

Ser mulher negra no Brasil é saber que você está na base da pirâmide social e por mais que seja capacitada e inteligente carregará consigo o estigma do sexo e da cor, terá que enfrentar sempre uma batalha para merecer um posto que não seja de doméstica ou cozinheira, não querendo desmerecer tais profissões, mas culturalmente são atribuídas às mulheres negras numa condição de rebaixamento social como se fosse o único lugar que nos cabe. Então viver no Brasil para nós é viver em uma luta constante por respeito e dignidade.

 - Tu és uma jovem professora, mulher negra. Nessa tua trajetória como tu analisas a participação das mulheres na política e na atuação nos movimentos sociais?

Embora as últimas eleições ocorridas no Brasil tenham sido marcadas por candidatas eleitas e algumas delas negras, a participação feminina no cenário politico ainda é muito pequena, precisamos ocupar mais cadeiras nas câmaras legislativas e executivas, para isso os movimentos sociais podem corroborar, pois hoje vemos cada vez mais o ingresso das mulheres nos movimentos sociais e, no meu modo de ver, eles podem fortalecer e criar mecanismos para que mais mulheres ocupem espaço na política.

- Qual o maior desafio de ser uma professora negra nos dias atuais?

O desafio de ser uma professora negra é você perceber que sua formação foi toda dentro de um sistema racista, que o seu ambiente de trabalho é um lugar de propagação consciente e inconsciente do racismo estrutural responsável pela morte e marginalização do seu povo, então tentar fazer diferente é tornar-se a “rebelde sem causa”.

 - Se a escola não a preparou, como você criou consciência sobre o que é ser negro?

Sempre tive orgulho de ser negra por ter sido criada no seio de uma família preta, embora não tivesse o conhecimento que tenho hoje, sempre abominei o racismo e o preconceito racial. Mas a construção dessa consciência de forma mais ampla veio com estudo, pesquisa e o contato com outras pessoas negras que valorizam sua negritude, e ainda estou nesse processo de descolonização da mente.

 - Como as escolas hoje podem fazer diferente?

Adotando uma pedagogia antirracista, repensando a prática pedagógica e o modo de ver e tratar o aluno negro. Não podemos continuar ensinando a nossos alunos que os negros são descendentes de escravos, mas sim de pessoas que foram escravizadas, não podemos falar de igualdade racial se meu aluno negro não pode ser o príncipe ou o protagonista de uma peça teatral.

 - Que outros caminhos você poderia apontar, hoje, para a luta contra o racismo?

A união dos negros, precisamos nos organizar em coletivos, associações, grupos para fortalecer os movimentos antirracistas.

- Você acha importante se dizer mulher, professora negra? O rótulo demarca ou aprisiona?

O rótulo demarca, pois faz com que eu lembre quem sou e quem eu escolhi ser, o que pode ser problema pra uns, para mim é identidade.

 - Como tu vês esse debate racial no contexto atual?       

Necessário. Embora incomode, discutir sobre o racismo é trazer à tona os malefícios que ele causa no país, pois, como diz Silvio Almeida, “o racismo estrutural afeta negativamente os campos políticos, econômicos, sociais e culturais do país”.

 - O que precisa ser feito para incentivar a participação das mulheres para que elas ocupem cada vez mais os espaços de poder?

Primeiro as mulheres devem se libertar da mentalidade machista. Ao contrário do que se pensa tem muitas mulheres de mente machista. Segundo, buscar uma organização política assim como os homens fazem.

 - Você como professora de história, como analisa o fato da história do povo negro ser uma história não contada? Por que não conseguimos levar essa história para as escolas? Por que não conseguimos mudar isso?

A escola no Brasil  foi pensada para o branco. O negro não tinha o direito de estudar até inicio do século XX. Outro ponto é que após a abolição da escravidão no Brasil os governos fizeram de tudo para apagar a mancha da escravidão mantendo a maior distância possível da África. Assim nossa história foi contada apenas com ênfase no negro escravo, mas não sob o olhar do africano. Isso refletiu no sistema educacional que foi criado  para o branco e consequentemente as escolas tornaram-se o espelho da sociedade  e um ambiente propagador do racismo estrutural e é por isso que é tão difícil mudar.

 - A extrema-direita tem imposto suas pautas fascistas, conservadoras. Como isso reflete nas comunidades negras?

Negativamente, pois não basta a marginalização e exclusão social das comunidades negras, ainda temos que lidar com fascistas e ver nossos irmãos perderem suas vidas em decorrência disso.

- Como reverter o apagamento das histórias, indígenas, negras. Como reverter isso? 

Contando nossa própria história. Buscando nosso lugar de fala.

 - Sobre o papel da mídia quando falamos sobre racismo, muitas vezes parece que ela se dá pontualmente, como no caso do episódio envolvendo os EUA. Como avalias o racismo estrutural da mídia? Por que não avançamos?

Por ser estrutural o racismo está em todos os espaços sociais, na mídia não é diferente e isso é catastrófico, pois ela tem grande poder para influenciar as pessoas, tudo isso nos impede de avançar.

- Vivemos sob um governo que faz ataques sistemáticos à democracia, à Imprensa. Qual deve ser a postura dos professores diante disso?

Usar nosso poder de criar e influenciar  opiniões para defender a democracia.

 - É possível desvincular o ato de ensinar de um ato político?

Creio que não, pois ensinar é também um ato politico.

 - Como os temas como feminismo, machismo, violência contra as mulheres se apresentam dentro do contexto do magistério? Que outras pautas se apresentam como urgentes e necessárias de discussão? 

Apresentam-se como temas relevantes e merecedores de uma abordagem mais complexa, pois estão ligadas à formação cidadã  e humana do individuo. Também são necessários os debates sobre xenofobia, educação sexual e tolerância religiosa.

 - A violência contra as mulheres em suas mais diversas formas, machismo e discriminação de gênero são pautas fundamentais quando falamos sobre direitos das mulheres, e vemos a violência de gênero crescer em Oeiras. Como tratar estas questões, tomando por base o panorama local?

Tratar com rigor, considerando as leis relativas a isso. Exigir celeridade no julgamento dos processos.

 - Como você analisa os crescentes casos de intolerância religiosa que ainda vemos nos dias atuais?

Como um reflexo da ignorância humana e da falta de humanização do homem.

 - Que sociedade você espera ter pós-pandemia, ou que sociedade podemos esperar?

Espero que tudo que essa pandemia nos causou sirva de lição e nos tornemos mais humanos, buscando ter mais empatia e respeito à vida.

2comentários
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias