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Conto

O líquido negro

Por Júnior Vianna

05/02/2021 09h17Atualizado há 4 semanas
Por: Lameck Valentim

Por Júnior Vianna

 

- Petróleo?!

- Sim! Petróleo.

- Mas...

- É esse mesmo, reverendo. Não tenha dúvidas!

- Ei, menino! Ei, Bastião! Traz aí meu filho, aquele livro preto pra mim.

-  A Briba?

- Não, o outro. O dicionário.

- Petróleo: combustível natural extraído de jazidas subterrâneas das rochas sedimentares – em voz alta o padre leu o verbete, tirando a sua dúvida que já era certeza do pesquisador Olímpio Marques.

- O senhor e a Igreja podem se considerar ricos, mas tem um probleminha.

- Qual?! – interrogou o padre meio espantado.

- É porque tem que derrubar a igreja, já que o poço petrolífero foi encontrado no seu subsolo.

- Mas isso é um sacrilégio! Derrubar a Casa de Deus em nome do dinheiro? Talvez isso nem seja mesmo esse tal petróleo, pode ser os restos mortais dos antepassados que eram enterrados dentro da igreja. Mas, pensando bem...

Padre Raimundo caminhava de um lado para outro da sacristia, coçava os olhos e passava o lenço de linho na testa, pois estava mais suado do que tampa de cuscuzeiro. O pesquisador mantinha-se sentado e fazia uma cara de suspense olhando para o padre inquieto que não tomava uma decisão concreta.

- Bastião! Ei, Bastião! Meu filho, arranja um copo d’água pra mim – ordenou o padre ao menino que ficava de ouvido ligado na conversa.

A sacristia era envolvida pelo silêncio. O padre, pensativo, encontrou no momento uma única saída: rezar. Gordo e com uma barriga enorme, o pároco ajoelhou-se sobre o velho genuflexório de madeira, virou-se para o Cristo no crucifixo, fez o Sinal da Cruz e entoou com a boca murcha as sacras orações. Olímpio olhava para os lados e, mesmo impaciente, fazia cara de riso. Ao findar as orações, padre Raimundo fez outra vez o Sinal da Cruz e gritou o sacristão:

- Bastião! Ei, Bastião!

- Siô?

- Chame o prefeito aqui!

- O que manda ou o que obedece?

- Como é? O que manda ou que obedece? Que historia é essa?

- Mas foi minha... O menino tentou-se explicar, mas foi repreendido novamente pelo padre:

- Largue de besteira e vá chamar o Dr. Princípio. Diz a ele pra vir o mais rápido possível. Esse menino sai com cada uma! Quem já se viu dizer que tem um prefeito que manda e outro que obedece?!

Para quebrar o clima tenso que se instalava ali, o padre Raimundo resolveu então tomar um cafezinho.

- Está servido, senhor Olímpio?

- Só um dedinho.

- Mas me diga aqui uma coisa: se retirar mesmo esse tal óleo preto debaixo do chão, vai estragar muito com a igreja?

- Vai depender. Como o senhor mandou cavar um poço para abastecer a casa paroquial, mas encontrou foi uma jazida de petróleo, isso é o sinal de que é muito rasa a camada onde se encontra o liquido negro – explicou o pesquisador bibicando o café, que além de amargo, estava frio.

O padre silenciou-se, talvez pensando em algo para solucionar o problema, quando ia fazer outra pergunta, foi surpreendido com a chegada do prefeito:

- Bom dia!

- Bom dia! – respondeu o padre Raimundo, juntamente com Olímpio.

- Mas o que desejas, caro reverendo Raimundo Albuquerque? – como sempre muito sorridente, interrogou o prefeito, que sem pedir licença, já foi logo se sentado.

- Um problema! Um gravíssimo problema! – respondeu dramaticamente o padre.

- Ou talvez uma solução! – exclamou do outro lado o pesquisador.

- Mas vamos logo, diga-me o que foi que aconteceu? Estou me roendo de curiosidade.

- É pruque acharam um óio preto no quintar! – Exclamou Sebastião todo entrosado.

- Sai daqui, menino! Tu num tá vendo que aqui só tem gente grande? - reclamou o padre.

- E que óleo é esse mesmo?! – espantado, perguntando outra vez o Dr. Princípio.

- Olha, logo que recebi a carta do vigário com a amostra do líquido encontrado aqui na igreja, tive a certeza de que se tratava de petróleo, mas como um bom profissional, preferi vir e constatar pessoalmente.

- E aí? É petróleo mesmo?

- Sim! E esse líquido tem uma importância muito grande no momento. Serve pra quase tudo – concluiu Olímpio.

- Mas isso é maravilhoso! Finalmente a cidade vai sair dessa miséria secular e a oposição vai continuar na oposição por um bom tempo. Isso é uma descoberta grandiosa! – falava e gesticulava ao mesmo tempo o prefeito empolgado.

O pesquisador ficou animado, pois percebia que com a exploração de mina petrolífera iria lucrar bastante, mas por outro lado, o padre não gostava muito da ideia da exploração:

- Não gosto muito dessa ideia maluca, pois para isso tem que derrubar a igreja. A Casa de Deus!

- Não se preocupe reverendo, eu mando construir outra, ou melhor, duas! – tentou convencê-lo o Dr. Princípio.

- Olha, senhores, essa igreja tem muita história. É o marco da colonização desse povo. Onde é que ficam as tradições, a memória, as lembranças? O padre foi mais uma vez contra a exploração do óleo.

A manhã ia passando compassadamente. Enquanto isso, aqueles três homens discutiam qual era o destino que levaria o templo, porém oscilavam as opiniões: ora o padre concordava com o prefeito, ora o prefeito concordava com o padre, mas depois de muita peleja o Pe. Raimundo bateu a mão na mesa e tomou a decisão final.

- Se o povo é a voz de Deus, e se eu sou o responsável espiritual dessa gente, a igreja vai ficar do jeito que está e ponto final.

- Mas é que... Antes que o prefeito completasse a frase foi tomado pelo padre outra vez:

- Aqui quem manda sou eu! Agora vão e procurem o que fazer. Se não eu excomungo já vocês!

O prefeito colocou o chapéu na cabeça e saiu cochichando com o pesquisador. Enquanto isso, mais uma vez o vigário dobrava seus joelhos no velho genuflexório da sacristia e em meio às orações gritava o sacristão:

- Bastião! Ei Bastião!

- Siô?!

- Mande os homens já tampar aquele buraco, em que estavam cavando o poço.

E assim permaneceu aquela igreja: altaneira, imperiosa, vivendo dos donativos dos seus fervorosos fiéis, que desconheciam que tamanha riqueza estava guardada debaixo do templo e que o líquido negro poderia mudar para sempre aquela cidade, mas a vontade do padre era a vontade da Igreja. Fazer o quê? O povo tinha que obedecer.

 

Junior Vianna

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