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Entrevista

Heloísa Helena: “na Câmara Municipal serei porta voz de todas as mulheres oeirenses, independente de sigla”

Entrevista concedida a Lameck Valentim.

18/02/2021 16h11Atualizado há 3 meses
Por: Lameck Valentim

Única mulher na Câmara Municipal de Oeiras, eleita com 922 votos nas últimas eleições, Heloísa Helena é uma jovem casada, mãe de dois filhos, professora, filósofa, firme, decidida e que já trilhou vários caminhos como a música, o teatro, o rádio, foi membro de movimentos da igreja católica, e como diz, “pessoa em constante processo de amadurecimento”.

Assumiu cargos ligados à juventude e com o objetivo de trabalhar pela população oeirense, lançou-se candidata a vereadora, sendo a 8ª mais votadas nas eleições de novembro/2020.

Heloísa Helena diz que na Câmara Municipal será porta voz de todas as mulheres oeirenses, independente de sigla, “pois hoje represento o eleitorado Oeirense, e de maneira mais determinada ao nosso gênero”.

Confira a entrevista:

-Gostaria que tu nos contasses um pouco sobre você, da tua trajetória e como se deu o encontro com a política.

Falar sobre mim é algo fácil e natural, pois sou uma pessoa aberta ao diálogo, que não se prende a alguns estereótipos e vive da maneira mais intensa os momentos oportunos. Fui uma adolescente reflexa de bons pais, como fase de contestação e rebeldia tive a ousadia de raspar a cabeça, pintar em tonalidades que seriam motivo de assunto na sociedade Oeirense, apaixonada por pop rock, reggae e músicas que marcaram época na influência direta da minha família.

Apreciava e participava de movimentos juvenis ligados à Igreja Católica onde estive na Pastoral da Juventude e iniciei os trabalhos como radialista na Atividade FM com reflexões para esse mesmo segmento. Também fazia participação do Programa Pé na Caminhada que era da responsabilidade do meu Pai Pedro Barbosa ( in memorian), fiz cursos de Comunicação promovidos pela Diocese, Teatro, o que me tornou uma adolescente mais desprendida e comunicativa.

Por esses caminhos fui amadurecendo e tudo o que fiz me tornou uma pessoa em constante processo de amadurecimento com muito orgulho dos meus Pais.  Sempre fui uma pessoa ousada e que gostava do processo eleitoral, pois desde pequena participei de carreatas, assistia a comícios e gostava de brincar na calçada fazendo enquetes para ter noção dos possíveis resultados eleitorais. Embora meus pais que não são Oeirenses e tenham vindo trabalhar na década de 70 para suprir a escassez de cirurgiões dentistas através do Sr. Juarez Tapety (in memorian), eu era apaixonada pela Música do Ednard “Pavão Misterioso” que me despertou no dia em que assisti da calçada da casa onde residia uma caminhada acompanhada por jovens do bairro Buringa que tinham uma fanfarra e com o grande coro entoando a cantiga citada. Relembro bem as pessoas que vinham empolgadas cantando e eu via como um canto de libertação, pois já me identificava com aquele movimento partidário e era limitada na época por causa de meus pais.

Segui por anos acompanhando as idas e vindas dos dois partidos e em 2008 numa reunião do Dr. B. Sá com alguns professores efetivos do município eu assumi publicamente meu apreço e vontade de lutar sem interesse pessoal por esse partido na disputa de eleição. Gerou revolta de um lado e repercussão positiva do outro. Eu sabia que estava sendo coerente e ainda convicta dos resultados positivos para o partido que ali assumia perante uma disputa acirrada entre Boca Pretas e Tupamaros. Acredito que essa circunstância foi o ponto crucial para o lugar que ocupo hoje no Legislativo Oeirense, pois surgiram oportunidadse como Coordenação do Projovem Adolescente, Coordenadora de Juventude, Secretária Municipal de Juventude.

Fui desenvolvendo ações que sempre me identifiquei que abrangem o processo de ressocialização e assim me tornei mais popular e referência para muitos jovens no nosso município. Mediante alguns serviços prestados, passei acreditar que no Legislativo seria possível fazer muito mais, e ouvindo o conselho de pessoas as quais confio há reciprocidade fui a luta e cessei com 922 votos logrando êxito.

-Quando falamos da participação das mulheres na política, historicamente vemos que a conquista de voto e participação delas nesse espectro foi árdua. Hoje, apesar da lei de cotas essa participação, mesmo tendo sofrido uma mudança ainda é muito pequena. Por que, na tua avaliação, não conseguimos avançar?

Eu tive acesso a uma página de facebook onde a mesma fazia referência ao meu resultado na condição de eleita, visto que a incitação ao ódio, e sobretudo, Mulheres detonando outra Mulher. Isso é lamentável e um passo para regressão na efetivação das políticas públicas, pois já somos alvo de uma sociedade machista e que necessita da nossa união para que possamos consolidar ações que proporcionem mais dignidade e espaço na política. No entanto, em momento algum me sinto ofendida por páginas fakes, sou apreciadora de embates reais e não de pseudo identidade. Isso também é uma fragilidade valorativa e talvez a forma de superação da frustração das pessoas que não alcançam seus objetivos mostrando quem de fato são.

As cotas são mínimas e cômicas se não fosses trágicas quando se diz que a maior parte do eleitorado do Brasil é do gênero feminino e que conta com menor representatividade, isso em virtude de uma lei que limita esse processo de democracia.

-Como a participação da mulher na política muda a sociedade e esse espaço de poder?

Mulher é sinal de inspiração e sensibilidade, ao tempo que manifestam audácia na busca de novos espaços que fortaleçam a democracia superando a violência política do gênero, pois sofremos mais que os homens com ataques que subestimam nossa capacidade e às vezes comprometem a autoestima. É um espaço de poder que quebra um modelo que prevaleceu há anos e torna-se uma ferramenta importante na defesa dos direitos conquistados do voto ao de ser eleita.

-Você foi a única mulher eleita para o legislativo oeirense. Qual a razão de ainda não se ter um quadro parlamentar mais equânime em termos de representatividade?

Mulher acreditar e investir na Mulher. Infelizmente há mais rivalidade que credibilidade.

-Tivemos muitas mulheres candidatas ao legislativo oeirense. Como você analisa a participação das mulheres na política em Oeiras?

Achei relevante em relação a outros pleitos. Vimos que diferente de outros contextos em que muitos achavam que a Mulher seria apenas para preencher legenda, tivemos de fato candidatas que tinham projetos políticos e foram à luta e apresentaram uma votação que expressa um passo positivo.

-Como única mulher na Câmara de Vereadores de Oeiras, você sente que a sua responsabilidade aumenta?

Na verdade a minha presença na Câmara hoje é pontuada por dois aspectos: os que acreditam na força e coerência do meu discurso pontuado na capacidade interpretativa, ao tempo que sempre me apresentei e sou de fato uma Mulher que gosta e participa de debates e se sente confortável na luta por soluções viáveis às questões sociais, sobretudo.

- Mesmo com um número de mulheres candidatas, até por força da lei de cota, ainda é pequena a participação das mulheres na política. Como atrair as mulheres para esse campo?

Lutar por uma mudança na lei de Cotas que é de apenas 30% e que o processo eleitoral passasse a funcionar de maneira igualitária no peso da escolha do voto.

- Você esteve como secretaria da juventude. Agora como vereadora, como pretende continuar a trabalhar pelos jovens oeirenses?

Através de Projetos que serão anunciados oportunamente juntamente aos trabalhos da Casa. O que não me faltam são ideais.

 

- E em relação às mulheres, o que podemos esperar de suas ações?

Serei porta voz de todas independente de sigla, pois hoje represento o eleitorado Oeirense, e de maneira mais determinada ao nosso gênero. Lutarei pela construção da Delegacia da Mulher como ponto crucial de termos um espaço de direito, projetos que capacitem para um projeto político próspero, cobrança das Leis que penalizem mulheres que sofrem assédio moral no trabalho, pois eu já senti na pele e sei o quanto isso adoece, e atender às demandas visto que as citadas são as prioridades para início do mandato.

-É óbvio que sua atuação não se dará apenas nestes aspectos, como pretende pautar a sua atuação parlamentar?

Movimento LGBTQIA+ onde não basta afirmar que se respeita e na essência não promove espaços de inclusão social principalmente promovendo projetos que incluam familiares dessas pessoas para que as mudanças positivas iniciem dentro de casa na dinâmica de acolhimento, pois a sociedade em si, às vezes já é sinal de segregação. Também as diversas formas de Crê visto que há certa intolerância entre as manifestações religiosas, sobretudo as Afro descendentes e Kardecistas. Defenderei a inclusão social de pessoas com limitações físicas, visuais, cognitivas; defesa da causa animal, e já cobrei na Câmara, de forma interna, a presença de uma intérprete de Libras nas transmissões das sessões

 

-Você sempre se posicionou diante dos problemas sociais. Que visão você tem sobre os Direitos Humanos no Brasil atual?

Em partes fragilizados pela intolerância às ideologias de gênero  manifestada por representantes políticos conservadores que acabam por incitar o ódio e que tem resultado em caos na vida dos marginalizados’ pelo sistema. Em suma, vimos um retrocesso com direitos sendo subtraídos constantemente. 

-Estamos vivendo um contexto conservador onde se demoniza discussão de gênero, violência, fanatismo, extremismo, machismo. Como filósofa, pensar uma sociedade mais livre de preconceitos?

O pensamento deve ser externado com ações concretas, pois não basta adotar apenas uma linha de adeptos ao que tudo critica sem que se busque caminhos legais para o que a razão de fato oferece. Temos que realizar projetos que pressionem os violadores de direitos buscando unir segmentos que comprovem a prática dessas injustiças de forma que se exponham os que promovem o câncer social.

Pontuo até que não se basta fazer um manifesto isolado “Todos por Maria, Francisco...”, temos que ir até a ferida e mover ações judiciais para penalizar, pois o ser humano só reflete um pouco quando é convidado a responder pelos seus atos, do contrário, ele permanece difundindo o ódio, alimentando o preconceito, e achando que está lutando por uma sociedade melhor ao seu olhar segregado que tanto massacra vidas.

- A pandemia tem impactado o mundo, fez com que repensássemos maneiras de atuar, de agir. Fala-se que um novo mundo deverá vir pós-pandemia. Tu crês nessa mudança? Que mundo você espera pós-pandemia?

Não creio, o mundo somos nós, o ser humano traz em si uma essência e esta não se muda, pois já carregamos o que julgamos valores e isso é reflexo do processo educacional assistemático, por sinal, bastante fragilizado. As pessoas que são sensíveis manifestam de uma forma mais árdua seus desequilíbrios emocionais por terem a empatia, sofrem de ansiedade, e buscam ao máximo soluções para amenizar o caos da mazela social.

O mundo pós pandemia já reside desde que foi anunciada a corrupção de políticos Brasil a fora que se aproveitam do momento para desviarem o que seria em prol da vida, Instituições Religiosas que não abrem mão do dízimo para que as pessoas possam fazer algo concreto e direto nesse momento de fome e desemprego, empresários que se aproveitam para extorquir dos consumidores com produtos essenciais dentre os cuidados essenciais na luta contra o vírus.

Particularmente, com a experiência que tive em casa, vi no meu caso, o quanto meu filho sentiu falta do abraço que dava todos os dias ao acordar. Ele olhava de longe e dizia: “Faltam tantos dias para eu abraçar a senhora”. Vi que o afeto entre pais e filhos ainda faz a diferença onde é exercitado e chorei escondida por alguns momentos porque no meu tempo eu não abraçava os meus, exceto em datas comemorativas como aniversário porque não ter esse espaço, eram conservadores e refletiam a criação dos meus avós para conosco.

Por outro lado como tive conhecimento de pessoas que contraíram e não obedeceu sequer o isolamento domiciliar, faltando com a responsabilidade social, o respeito à vida do outro que nem sempre apresenta as mesmas condições. Enfim, esse momento só serviu de aprendizado mesmo para os que já possuem uma sensibilidade social, somos reflexo dos valores que cultivamos.

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