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Crônica

Oeiras: A fé que move um povo

Crônica de Júnior Vianna

11/03/2021 11h00Atualizado há 1 mês
Por: Lameck Valentim

*Por Júnior Vianna

 

O sino do Rosário dobra! A cristandade aglomera ao derredor da igreja jesuítica, concomitantemente a imagem portuguesa do Senhor dos Passos desponta na porta principal do templo, a charola é a mesma do século XIX, já os confrades, estes mudaram os nomes, no entanto permaneceram quase sempre das mesmas famílias.

Maria Beú lamenta sobre o tamborete sustentado pela fé de Miguel de Jerônimo, ao tempo em que os caminheiros exercitam a sua fé marcada pelo roxo da paixão. O bumbo da banda Santa Cecília marca a saída do cortejo. Ao longe, já desfraldadas, as flâmulas roxas fazem daquela sexta-feira o dia mais oeirense do ano: a “Sexta Feira dos Passos”.

Os fiéis aglutinados seguem os passos do Bom Jesus, as ruas viram a sacra passagem da Jerusalém antiga. Nelas os nichos se abrem em solene saudação ao orago devotado, capelas cheias de alecrim e flores de passos. Ali está Oeiras, viva, secularmente viva! O dia vira noite, eis o sermão, o Passo do Engano, a Rua da Amargura e depois de tudo isso, o Bom Jesus com Maria das Dores chegam ao apoteótico adro da Catedral de Nossa Senhora da Vitória. Vitória de Deus, vitória do povo da Vila!

Passado a solenidade “Dos Passos”, Oeiras passa a rememorar a liturgia da Semana Santa. No Domingo de Ramos, as folhas de oliveira são substituídas pelos ramos da carnaúba nossa de cada dia, e louvam em sua só voz: “Hosana, Hosana, Hosana ao nosso Rei!”. Se for Santa a semana, a segunda-feira é também! No interior da Catedral sob o báculo do bom Pastor, os padres da Diocese celebram a Missa dos Santos Óleos, o óleo para a unção dos catecúmenos, o óleo para a unção dos enfermos e o óleo do Crisma para os grandes sacramentos que conferem o Espírito Santo.

No transcurso do tempo santo, do campanário setecentista, os bronzes anunciam a Missa dos Enfermos. É “Terça-Feira dos Enfermos!” A missa é secular, igreja cheia, onde os cristãos rogam a Deus por saúde e pela cura de seus males espirituais. Coisas que os anos encarregaram de dar em Oeiras uma atmosfera mística e penitencial.

Na Quarta-Feira Santa, a Igreja de Oeiras celebra a solenidade das Trevas, rito dos fiéis, para contemplar em piedosa meditação a paixão, morte e sepultamento do Senhor, à espera do anúncio da sua ressurreição. Este ritual foi por muitos anos tragados pelas trevas da omissão, ressurge nos dias atuais pelas luzes da fé.

Na quinta feira da paixão, em Oeiras tida pela alcunha de fogaréu, o povo de Deus rememora as seculares celebrações deste dia, os sinos tocam, clero e fieis lotam a Catedral de Nossa Senhora da Vitória. No seu interior, a Missa Solene da Ceia do Senhor, onde entre ritos e cantos, preconizam a cerimônia do Lava-pés e a Transladação do Santíssimo Sacramento para adoração. Na noite mágica deste dia, diante o som fúnebre da matraca, as luzes da cidade são apagadas, enchem as ruas de homem e fazem como seus antepassados: caminham, cantam e sustentam na mão uma lamparina, não para buscar o Cristo injustiçado, mas o Jesus fonte inesgotável de Justiça.

... “Bendita e louvada seja no céu a divina luz, e nós também cá na terra, louvemos a Santa Cruz”... A cristandade sacraliza a Sexta-Feira tida da “Paixão”, o dia em que o Verbo humanizado, verteu-se em gotas para salvar a humanidade. Eis no madeiro o Cordeiro de Deus! Pende sobre os oeirenses a imagem-homem de Cristo, que assusta pela sua fisionomia fúnebre. Silencia o povo, faz-se o sermão! Entre palavras e outras, o orador anuncia a hora de retirar a imagem da cruz. Sobem nas hastes do madeiro, os “Freitas”, ali está Pedro em Nicodemos e Clovis Júnior em José de Arimateia. Cumprem o dever heráldico, descem a imagem a entregam à sua mãe, enquanto Madalena de joelho está junto à cruz. À banda toca os primeiros acordes da marcha fúnebre e mais uma vez os oeirenses enchem as ruas em procissão.

No sábado de Aleluia os sinos voltam a dobrar e a igreja se renova de esperança pela vitória da vida eterna sobre a morte... “Aleluia, aleluia, aleluia!”. E por fim o Domingo de Páscoa, que nestas bandas do Brasil é chamada de “Domingo da Ressurreição”, o Cristo ressuscitado é insígnia de perseverança. Um número reduzido de fieis, talvez ressacados das festas de vésperas, não comparece a solenidade mais importante da Semana Santa. Talvez no dito pelo não dito, se chegue à conclusão que o sertanejo tenha mais intimidade com o Cristo vergado pelo peso da cruz, do que por aquele que venceu a agruras da morte.

Oeiras é tudo isto, um misto de fé, tradição e teatro, que fundidos num turbilhão de emoções, que faz aflorar um sentimento que se bem ainda não se consta nos dicionários. Tal sentimento é a oeirensidade.

 

*Júnior Vianna é historiador

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