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Reportagem especial

Um ano após registro do primeiro caso de Covid-19, pandemia segue fazendo vítimas e alterando rotinas em Oeiras

Editor do Mural da Vila/Tô no Mural ouviu pessoas que superaram a doença, famílias enlutadas e profissionais de saúde.

23/03/2021 19h42Atualizado há 4 semanas
Por: Lameck Valentim

Lameck Valentim
Da Redação Mural da Vila/Tô no Mural

Oeiras completa neste dia 24 de março um ano desde que o primeiro caso de contaminação pelo coronavírus foi registrado na cidade. De acordo com o ESUS, os primeiros casos foram de duas mulheres que tiveram seus testes positivos em 24 de março de 2020. De lá para cá, de acordo com o último boletim epidemiológico emitido pela Secretaria Municipal de Saúde, foram 2930 pessoas contaminadas na cidade, sendo que 43 perderam suas vidas. Deste total, 2725 estão recuperadas.

O aniversário da pandemia em Oeiras ocorre justamente no pior momento da doença na cidade, no estado e no país. A direção do único hospital público do município e que atende toda a região sofre com a pressão para administrar os, então, insuficientes leitos de enfermaria e UTI, ante ao crescente número de pessoas necessitando de internação. O estado enfrenta um colapso na saúde pública, registrando hospitais lotados e o grande aumento nos casos de contaminação e internações, gerando filas de espera por leitos de UTI.

A dor de um luto sem despedida

  Mesmo com um ano de enfrentamento, o que se sabe sobre a doença ainda resta insuficiente, não se tem pleno conhecimento sobre todas as formas como ela age tampouco sobre as sequelas que pode deixar. No entanto, uma coisa é certa: a gravidade das marcas por ela deixadas. Marcas psicológicas e emocionais como a saudade,  como ter que lidar com a dor de um luto incrementada pelo fato de não haver despedida.

São números que assustam. A cada dia quando os boletins são emitidos pela Secretaria Municipal de Saúde e pelo Hospital Regional Deolindo Couto, as pessoas se chocam com a forma como a doença tem se espalhado em Oeiras. Assusta ainda mais as mortes que nos últimos dias tornaram-se mais frequentes. Na contagem divulgada até esta terça-feira, 23,  foram 43 mortos. Quarenta e três vidas interrompidas por um inimigo invisível. Não, não são só números. São pessoas! Com pais, esposas, maridos, irmãos, filhos, netos, sobrinhos, avós, vizinhos, com contas para pagar, um jardim para regar, um trabalho por fazer, aquele sonho por realizar...

A saudade tem tantos rostos. E silenciou lares tão diversos, de endereços nobres a casas muito humildes, do Centro da cidade, dos bairros mais periféricos, da zona rural.  A saudade cheia de dores, que se potencializa na impossibilidade de viver o luto. Pelo menos da forma como sempre fizemos.

Mas falar também é um caminho. Relembrar as histórias, refazer a trajetória de quem se foi. Três famílias concordaram em dividir, mesmo num momento tão difícil, a dor dessa saudade. Até como uma forma de homenagear e tornar mais viva a memória de uma vida inteira.

Jânia Maria, Expedito Neiva, Antônio Benício e Conceição Benício

Joice Madeira é filha de Jânia Maria, que morreu em 25 de junho de 2020, aos 45 anos, sendo a primeira morte em decorrência do novo coronavírus em Oeiras. Ela era portadora de alguns problemas respiratórios e foi internada em estado grave na UTI exclusiva para os pacientes da Covid 19 do Hospital Regional Deolindo Couto, onde veio a falecer.

Eu sempre fui muito apegada à minha mãe, inclusive fiquei com ela na UPA durante a tarde e a madrugada toda. Quando o resultado do exame saiu permaneci lá até ela ser internada. Ela era asmática e tínhamos consciência da gravidade, porém não nos despedimos por que jamais imaginei perder a minha mãe naquele mesmo dia”, relembra Joyce.

Preocupada com o estado da mãe e sem poder acompanhá-la, Joyce conta que ficava à espera dos boletins médicos ao lado de fora do hospital. “Permaneci ao lado de fora do hospital esperando o boletim diário, que veio dizendo que ela estava melhor. Fui em casa descansar pois passei a noite toda e o dia do lado de fora do hospital, quase não dormi . Pela manhã, quando consegui dormir meu celular chamou. Eu não atendi. Só gritava e pedia socorro para Deus, pois eu sabia que era sobre minha mãe. Uma amiga mandou uma mensagem falando: “Meu amor fica bem, que Deus conforte vocês!”. Até hoje eu sinceramente não sei definir o que senti naquele momento”, afirma Joyce, que acrescenta: “Desci para o hospital fazendo promessas a Deus e pedindo pra Ele fazer igual nas novelas. Mas quando eu cheguei tive a notícia e me vi sozinha por que ninguém podia encostar. Por medo, por ser a primeira pessoa a morrer da doença as pessoas tiveram preconceito, essa é a palavra certa: Preconceito! Eu não vi a minha mãe,  eu não pude velar a minha mãe, o direito que tivemos foi de entrar no necrotério e ver um saco preto sendo colocado em um caixão.  Fomos obrigados a aceitar que era ela ali, sem direito a sabermos o que estava vestida  e muito menos a feição do seu rosto. Eu me recordo todos os dia da última vez que ela saiu da nossa casa, e sinto como se o nosso ciclo não tivesse fechado”, diz a filha emocionada.

Nos relatos colhidos nessa reportagem, a pressa na hora do adeus, imposta por questões sanitárias, tem sido a parte mais dura de superar. Não dá tempo de chegarem os parentes, principalmente os que moram fora, os amigos, os netos, os colegas de trabalho. Os poucos que podem estar presentes ao sepultamento, na maioria das vezes, acompanham de longe. A despedida é de um caixão lacrado. A imagem do corpo embalado em um saco plástico, sem flores, sem velas, sem tempo de dizer uma palavra derradeira, fazer uma última oração, torna a despedida incompleta, um peso a mais de se carregar.

A família Neiva, perdeu em 03 de outubro de 2020, um dos seus filhos para a Covid 19.  Expedito Neiva Santos, de 65 anos, era filho do casal Anchieta Santos e dona Carmosina Neiva.  Ele residia na capital piauiense e era bancário de carreira do Banco do Nordeste, tendo atuado como superintendente nos estados de Alagoas, Maranhão e Piauí e diretor no Ceará. Seu corpo foi sepultado em Teresina, sem a presença de grande parte da família, que os fez viver um luto sem despedida.

A professora Cassi Neiva, que viveu a dor de um luto sem despedida  diz que:  A dor de um luto sem despedida é uma dor infindável. Ela renasce dia-a-dia em nosso coração, uma vez que não houve o encontro para o adeus, do toque físico, do olhar, do abraço, do beijo...  Uma dor abstrata e concreta em um tempo só, posto que  não houve corpo pra velar, todavia  houve a certeza da desconstrução do mesmo. Uma dor com dores diversas, misto de afirmação e negação da morte de quem não vimos, de quem não sentimos... Dor de muitos  silêncios e lacunas jamais preenchidas. Perder um familiar para a Covid- 19 é uma  desdita sem precedente que agiganta nossa alma de um luto avassalador. É tempo passado sendo fotografado para o presente em marcas de muito desalento. É dor para a vida toda, é espírito sangrando pelas  lembranças de um amor que partiu sem o nosso afago. Que Deus livre as famílias dessa dor que queima sem ter fogo”, emociona-se Cassi Neiva.

Dentre as muitas famílias que sofreram com a morte de seus membros nesta pandemia, a dor da família Benício foi lancinante, ao ver partir no espaço de dez dias o casal Antônio Benício e Conceição Benício que foram casados por 60 anos. Ele morreu em 28 de junho de 2020 e ela em 09 de julho do mesmo ano.

Sua filha caçula, Margarete Benício reside em Beberibe, litoral do Ceará, e sofrendo à distância acompanhou todo o sofrimento dos pais.

Para mim foi uma surpresa, pois nunca pensei que o Covid ia chegar aos meus pais, porque eram idosos e viviam só dentro de casa.  Eu sempre falava para minha filha pra ter muito cuidado com as pessoas que entravam e os de casa que tinham que sair,  que tomassem todos os cuidados. Eu não sei como foi que eles contraíram o vírus, se alguém trouxe para dentro de casa ou se foi quando meu pai esteve internado na UPA, tendo em vista que ele foi internado duas vezes no pico da primeira onda da pandemia em Oeiras. Foi tudo muito difícil para mim, que acompanhei o sofrimento deles por vídeo conferência. Enquanto estavam em casa, minha filha ligava pra mim para que eu pudesse acompanhar. Foi tudo muito triste. Eu via meu pai sofrendo e eu sem poder ajudar a minha filha sozinha cuidando deles e a minha mãe que tinha Alzheimer e, eu nessa distância grande sem poder ir, pois aqui estava tudo fechado. Foi um sofrimento grande para mim, ainda como está sendo hoje. Quando consegui marcar a passagem para ir pra Oeiras, soube que todos em minha casa estavam infectados, o que aumentou o meu sofrimento. Ao morrerem a dor só potencializou, por não poder ter velórios dignos. Da minha mãe, vi apenas uma foto do caixão na saída do hospital. Já na morte do meu pai foi tudo pior, pois ninguém da nossa família viu  o seu sepultamento, por estarem todos em isolamento. Meu pai foi enterrado só. Ainda sofro muito porque o meu pai foi enterrado como se fosse indigente, sem ter ninguém pra acompanhar. É uma dor muito grande, muito, muito grande, você perder um ente querido nessa pandemia e não poder enterrar, nem velar o corpo.  Você nasce, cresce ali junto com seu pai e sua mãe e no dia da morte deles não poder ver e nem enterrar. Para mim é inaceitável, sem palavras. Sofro muito com a perda dos meus pais, já fazem sete meses que eles morreram, mas pra mim é como se fosse hoje, é uma dor tão grande que choro todos os dias”, emociona-se Margarete.

Thayana Benício é neta de Antônio e Conceição Benício e criada pelo casal e cuidou deles até quando foram internados no HRDC.

Ela conta que foi assustador receber a notícia que eles estavam contaminados, e conta que após a internação na UPA seu avô voltou para casa resfriado, mas que não pensaram tratar-se de Covid, afinal, ele teve alta de uma internação e, em casa trataram como se fosse uma gripe comum. “Em um desses dias, o levantamos para dar banho e percebemos que ele estava com muita falta de ar. A pessoa que  me ajudava a cuidar dele me orientou a chamar o SAMU pra levá-lo para o hospital, porque não estava normal, aquela falta de ar”, conta a neta, dizendo que o barulho que ele fazia era tão alto que o médico do SAMU conseguiu ouvir pela ligação.

Thayana conta que a família ficou sabendo que ele testara positivo através dos  vizinhos e só depois o hospital informou que ele já estava intubado. “Naquele momento o chão abriu e aquele diagnóstico, para nossa família foi devastador, pois na sequência todos nós testamos positivo e passamos a ficar em isolamento”, relembra Thayana

A neta do casal diz que todos os dias eram de muita angústia a espera do boletim médico e que nunca vinha nenhuma notícia boa. “Os boletins sempre traziam notícias bem tristes e a gente já ficava bem apreensivo, orando a Deus pela recuperação dele, mas o que vinha nos boletins não era nada fácil, aí quando o telefone tocava, a gente já ficava com o coração acelerado, esperando notícia ruim. A Covid deixou sequelas emocionais. Até hoje quando o telefone toca o coração acelera um pouco”.

A distância imposta pela doença faz com que Thayana sofra ainda mais. “Não tem um dia que eu não chore. É muito triste você ter seu ente querido e você não poder está perto na hora da doença. Eu cuidei dele nessa, nessa última fase de vida dele e eu senti muito, porque eu não pude estar presente no momento que ele partiu eu não pude estar lá segurando sua mão, ter feito uma oração por ele. Eu sinto muito remorso.  Só as famílias que estão perdendo suas membros sabem como é essa dor”, emociona-se Thayana.

Sobre o momento da morte do avô, ela conta que ficou desesperada por saber que não havia ninguém da família por estarem todos isolados. “Ainda pedi ao rapaz da funerária para passar ao menos aqui em frente com o caixão, mas ele disse que deveria seguir o protocolo e que não podia fazer isso. Só nos restou aceitar”, resigna-se.

Com a avó ainda internada, Thaynara conta que tinha esperança que ela voltasse pra casa. Mas que ao receber os boletins via que ela a cada dia ficava mais distante, pois não reagia. “Em meio a minha dor, procurei saber quem estava na mesma UTI nos dias em que eles estavam internados para poder me falar como era que eles ficaram, principalmente minha vó, após meu avô partir. Até que um dia uma moça me falou algo que me marcou tanto. Ela disse que no momento em que estavam colocando o corpo do meu avô dentro do saco, silenciosamente minha vó chorou, ela percebeu que desceu uma lágrima tão grande do olho dela, porque ali ela sabia que era o companheiro dela que estava indo embora, por mais que ela não falasse, ela estava vendo e sentindo. Eu acho que é por isso que que Deus não quis deixá-la aqui,  porque não ia ser a mesma coisa, sem ele”. No dia em que que sua avó morreu, a família já estava de alta do isolamento domiciliar e pode acompanhar à distância o sepultamento.

Thayana finaliza fazendo um apelo: “Peço que as pessoas se cuidem, eu sei que é complicado a questão da economia, mas a gente tem que se cuidar ao máximo, ter muito cuidado com esse vírus, porque ele está aí para provar que não é só pobre, não é só rico, é qualquer um, não é só idoso, ele pode levar qualquer pessoa. Evite aglomerações, fique em casa”, pede.

 Sentir a Covid 19

Marciel Bruno, Adleuza Pacheco, Ryann Araújo


 As marcas deixadas são lembradas também por aqueles que venceram a Covid 19, que viveram a intensidade da doença.

O advogado e pedagogo Marciel Bruno testou positivo para a Covid 19 em 09 de outubro de 2020. “No primeiro momento eu era apenas um suspeito que fez o teste e deu negativo, só que mesmo sem sintomas comecei a tomar remédios, seguindo o protocolo de um médico de Picos, isto era em uma segunda-feira. Tive  muitas dúvidas, fiquei isolado com minha esposa, devido ela também ser uma suspeita no primeiro momento. Foram passando os dias e eu não estava me sentido melhor, mesmo tomando os medicamentos. A semana foi passando, os sintomas começaram ser mais fortes. Então eu resolvi ir na sexta ao Centro Covid, lá testei positivo. Neste momento o médico viu o que eu já estava tomando e apenas aumentou um remédio, segundo ele era um mais forte. No sábado estava com 25% dos pulmões comprometidos e o médico mandou eu ficar em casa, tomando a medicação, mas não estava melhorando. Na terça fiz outra tomografia e eu já estava com quase 50% dos pulmões comprometidos.  Foram momentos difíceis, sendo o mais difícil do tratamento na terça. Estava na UPA, esperando a ambulância para ir para HRDC  já com o oxigênio.  Estava tranquilo, deitado, estão senti uma vontade de ir no banheiro, tirei o oxigênio, nesta hora o ar faltou.  A dificuldade de respirar foi grande, voltei rápido para o oxigênio. Nesta hora vi que realmente estava doente, depois de 35 anos , a primeira vez sendo internado. Outro momento complicado era explicar para minha irmã Rosinha que é ESPECIAL, que não estava doente, que estava em casa, para acalmá-la. Nesta hora fui buscar alegria em Deus para passar pra ela um rosto saudável, mesmo sem estar”, conta Marciel Bruno, que ficou 07 dias internado na enfermaria no HRDC, depois seguiu em tratamento domiciliar por mais 10 dias.

A professora e fotógrafa Adleuza Pacheco foi mais uma vítima da Covid 19, que teve sintomas mais fortes da doença, chegando a ser internada em Teresina. “A covid é uma doença que afeta não só a parte física do nosso corpo, como também afeta muito nosso psicológico.  Testei positivo para a Covid no final do mês de novembro do ano passado.  Ao receber o diagnóstico o medo tomou conta de mim. Iniciei o tratamento conforme orientado pela equipe médica do Centro Covid de Oeiras. Já no oitavo dia de isolamento domiciliar os sintomas se agravaram e tive que ser internada aqui no HRDC e dois dias depois fui transferida para continuar o tratamento em hospital de Teresina.  Foram dias de medo, angústia e incertezas.  O momento mais difícil do tratamento foi a realização das VNIs (Ventilação não invasiva) e gasometrias.  Mas foram exatamente esses procedimentos fundamentais para detectar e controlar a infecção e evitar evoluir para internação em UTI. A falta de oxigênio nos faz perceber que a vida é muito frágil e que respirar é o ato mais sublime e divino.  A fé em Deus, o apoio da família e amigos e a confiança na equipe médica nos faz ver que a vontade de viver é maior que o medo. Voltar para casa com vida e fazer parte da estatística dos que conseguiram vencer a covid 19 é de uma gratidão infinita”, conta emocionada a professora.

 Ryann Araújo é um jovem de 26 anos que contraiu a doença nesta segunda onda. Ele testou positivo no dia 02 de março de 2021 e conta como foi difícil receber o diagnóstico da Covid 19. “Foi bem difícil receber o diagnóstico da doença.  Mesmo já sentindo alguns sintomas, quando o médico disse que meu teste tinha positivado eu praticamente perdi o chão, minha pressão subiu. Acho que devido ao medo de ver tudo que está acontecendo em consequência da doença, fiquei bastante preocupado. Fiquei em isolamento domiciliar e o momento mais difícil foi 4 dias depois do diagnóstico que acordei com falta de ar, bastante cansado, com febre e tossindo muito. Tive que procurar atendimento na UPA e de lá fui internado no HRDC onde permaneci por 5 dias.  Nesse período, muita coisa passou pela minha cabeça principalmente no primeiro dia de internação: o medo de ser entubado, o medo de não voltar pra casa e por aí vai... Mas logo no segundo dia já comecei a responder ao tratamento e fui começando a se acalmar. Tive alta no dia 10 de março  Os primeiros dias após sair do hospital foram um misto de alegria misturado com preocupação. A alegria por poder estar em casa, perto da minha família mesmo que isolado e a preocupação de ter alguma piora novamente.  Mas graças a Deus, finalizei meu tratamento em casa  de forma estável”, conta Ryann Araújo.

 A sobrecarga e os desafios dos profissionais de saúde

Lívia Rêgo, Celana Camarço, Francisca Brito e Jéssica Torres

Passado um ano, em muitos momentos, têm-se a impressão do cansaço da população, que em muitos momentos e situações parece ter parado de se importar com a gravidade da doença, como foi logo no seu início. É como se a população tivesse entrado em uma fadiga e cansaço, diminuindo assim a percepção de risco, e ficando com a falsa impressão de que está tudo bem.

Assim, como no início, percebem-se os desafios dos profissionais de saúde, a sobrecarga de trabalho, o cansaço do trabalho, que se divide em duas frentes, de um lado uma pandemia exacerbada e outra frente trabalhosa que é a vacinação, que os faz planejar uma campanha gigante e cercada de incertezas.

A enfermeira Lívia Rêgo, coordenadora da Vigilância Sanitária em Oeiras, ressaltou como o envolvimento com a causa tomou seus dias e destaca a indiferença por parte de alguns: “Os dias, os meses foram passando e envolvimento em várias frentes, quando vi já era dezembro. E hoje em especial, me encontro com um misto de tristeza e a certeza que pouco aprendemos. A indiferença diante da dor, a falta de solidariedade torna tudo mais difícil para conseguirmos vencer todo esse processo. Mas precisamos seguir firmes e continuar”, ressalta a coordenadora.

Na linha de frente das emergências e Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) em Oeiras, profissionais de saúde se desdobram entre plantões para atender pacientes infectados pelo coronavírus que precisam de auxílio médico e suas vidas pessoais, como cuidar da família e outros trabalhos. Há quase um ano, a rotina deles foi alterada e passou a ser regada a tensão, dedicação e exaustão.

A enfermeira Celana Camarço, atua na linha de frente do Hospital Regional Deolindo Couto e tem vivido este último ano de forma intensa, com sua rotina totalmente alterada. “Minha rotina alterou totalmente. São dias cansativos, pouco descanso. No início tive medo da contaminação, de adoecer e ficar grave, de levar o vírus pra casa, de transmitir aos meus, pois tudo era desconhecido. A responsabilidade da gente aumentou exponencialmente,  pois enquanto profissional de saúde, além de orientarmos, temos que ser exemplo e nossa única alternativa é enfrentar e lutar contra esse mal ou desistir de tudo. Acaba que a gente se distancia de familiares e amigos... mas a fé que temos, as vidas que são salvas, a dignidade e o cuidado que podemos proporcionar às pessoas que passam por este momento difícil, junto a seus familiares, nos motiva a continuar”.

A médica Jéssica Torres, conta que a Pandemia alterou sua vida tanto pessoal como profissional.  Nossas vidas foram alteradas de muitas formas! Sobretudo a dinâmica familiar devido às aulas remotas das crianças. Além disso, adotamos ao máximo o isolamento social e passou a ser notório o estresse de todos com esse momento de reclusão. Na vida profissional as mudanças foram ainda maiores, lidar com uma doença desconhecida, imprevisível e muitas vezes letal trouxe uma sobrecarga tanto física quanto emocional relacionadas ao trabalho e é ainda mais difícil de lidar quando não temos uma previsão de quando tudo isso vai passar”, disse a médica.

A técnica de enfermagem, Francisca Brito, que atua na UTI COVID relata o quão é difícil trabalhar em um local onde estão os pacientes mais graves da doença. “Presenciei muitos momentos difíceis na UTI covid. No começo, sentia todo o receio de ser contaminada ao fazer a desparamentação, porque era uma doença que todos estávamos conhecendo e recebendo os devidos treinamentos para atendermos da melhor forma. A primeira intubação de paciente e o momento da despedida do paciente dos familiares, se tornou muito diferente e solitário, é muito angustiante para os familiares que não estão presentes. Nossa rotina pessoal e profissional mudou desde então, se fazendo necessário o afastamento de familiares e amigos. Ficar longe de minha mãe ,minha vó e meus filhos foi a pior experiência vivenciada. Nesses últimos dias estamos vivenciando o pior momento da pandemia o que está exigindo muito de nós profissionais da saúde. Mesmo com a exaustão física e emocional estamos trabalhando para acolher todos os pacientes da melhor forma possível, proporcionando conforto e empatia para os familiares. Não somos heróis, não temos superpoderes, o sofrimento dos nossos semelhantes nos abala, mas acreditamos na missão de cuidar, de amparar e, por isso, voltamos no dia seguinte, travamos outra batalha, algumas perdemos, outras ganhamos, mas o mais importante: nunca desistimos de lutar. Deixo aqui o meu apelo em especial aos jovens fiquem em casa, não se aglomerem, aproveitem esse tempo com a família, almocem juntos, assistam a um filme, resgatem o que se perdeu, porque esse vírus veio para mostrar que o mais importante é a vida. Nos ajude a ajudar.  Todos devem fazer a sua parte”, apela a técnica.

Neste primeiro ano da Covid 19 em Oeiras, mostra que seguimos em guerra, na batalha contra um inimigo invisível e que possui suas variantes, agravando ainda mais a situação. Estamos em guerra, e a batalha é lutada diariamente pelos enfermos e seus familiares; por todos nós e mais ainda por aqueles que estão na linha de frente, todos, sem exceção, do maqueiro ao médico, da limpeza ao diretor, do técnico aos enfermeiros, aos colaboradores de nossos hospitais e todos aqueles de outras áreas que também dão a sua importante contribuição no combate à pandemia. Através dos profissionais de saúde ouvidos para esta reportagem, externamos a nossa gratidão, o nosso muito obrigado a todos aqueles que atuam no combate ao coronavírus nas mais diferentes áreas, nos mais diversos setores. Gratidão por doarem suas vidas em prol do nosso povo, arriscando-se, afastando-se de parentes, e estando próximos aos que mais necessitam de cuidados. 

 

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