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Humanidade

Fake news propagadas acerca de doentes graves de Covid 19 incrementam a angústia de seus famíliares

Em meio a dor, famílias sofrem com fake news espalhadas sobre vítimas da Covid 19

14/04/2021 19h15
Por: Lameck Valentim

Por Lameck Valentim

As centenas de mortes causadas todos os dias pelo novo coronavírus mexem muito com as pessoas. O coração fica apertado quando vemos histórias rompidas abruptamente e acompanhamos a dor das famílias que não podem nem se despedir direito de seus entes queridos. O luto da pandemia, é um luto coletivo, envolve fatores além da perda de pessoas queridas. É a perda do nosso mundo normal, de atividades, de encontros.

Em meio às perdas, famílias tem sofrido com as constantes fake News espalhadas sobre o estado das vítimas, que traz dor e tristeza, pois além da situação em que vivem, ainda têm que desmentir as notícias espalhadas de forma errada.

As fakes News muitas vezes se espalham mesmo antes do resultado do teste para COVID-19. Em uma cidade pequena como Oeiras, basta alguma pessoa ser vista na Central Covid  ou na UPA, para que possíveis Fake News aconteçam e ganhem espaço nas redes sociais com centenas de compartilhamentos e visualizações.

É o caso de uma jovem oeirense, que chamaremos de Maria, que mora no bairro Jureminha. A jovem foi a UPA de Oeiraspor conta de um incômodo abdominal. Por não saber a divisão entre as áreas do atendimento para síndrome gripal e outros problemas, terminou entrando na primeira área. Uma pessoa a viu na UPA e passou a dizer que ela estava com a Covid 19 e internada na naquela unidade de saúde.

Quando cheguei a minha casa já estava um clima de tristeza com todos preocupados comigo, pois acreditavam que eu estava infectada com a Covid 19. O pior foram os vizinhos, que passaram a nos tratar com indiferença. Era o começo da pandemia e havia todo um preconceito com as vítimas da Covid. Levei dias até desfazer todo mal entendido, o que me trouxe muitos aborrecimentos e tristeza”, conta Maria.

O caso da jovem Maria é um dos muitos que ocorrem com frequência em Oeiras. Há registros de fake News espalhadas sobre mortes de pacientes da Covid que se encontram internados em recuperação, mas que muitos insistem em espalhar fake News, afirmando que estes evoluíram a óbito e criam até mesmo detalhes sobre o caso.

São conhecidos os casos de diversos pacientes que ficaram dias internados na UTI do Hospital Regional Deolindo Couto e que as famílias sofreram com as notícias falsas.

A historiadora Marianna Carvalho que teve um primo internado no HRDC por mais de um mês conta como a família sofreu com as notícias falsas. “Essas notícias falsas causavam uma certa revolta, porque além de lidarmos com uma situação difícil ao extremo como a dele, tínhamos que ouvir estórias negativas e que não condiziam em nada com a verdade e assim piorava o estado de ânimos nosso e da mãe dele que tem vários problemas de saúde”, relata. O primo de Marianna Carvalho teve alta após 33 dias internado e hoje recupera-se bem.

Nesta quarta-feira, 14, mais uma família em Oeiras precisou se manifestar através de áudios e mensagens para impedir que notícias falsas sobre a morte de um empresário oeirense continuassem sendo compartilhadas. “A informação repassada hoje não é verdadeira! Ele está sendo cuidado e recebendo todo o tratamento e atenção necessária para sua  pronta recuperação.  Unam-se conosco em oração e intercessão por sua saúde. Pelo bem de quem amamos, pedimos que não sejam repassadas informações que possam nos trazer dor e aflição, especialmente quando sem fundamento”, dizia parte do áudio e da mensagem feita por um sobrinho do empresário.

As fake news tomam de conta das nossas redes sociais sejam elas através do facebook, whatsapp ou até mesmo por meio das conversas nas esquinas de casa na calçada de casa. E com o advento da pandemia muitas notícias falsas surgem e dificultam muito  que informações corretas cheguem a todos.

De acordo com a psicóloga Millena Faustino, dentre as mais diversas formas de aferir o que vem se constituindo, chama a atenção um impacto negativo dessas notícias na vida das famílias que estão sofrendo por ter um ente querido em tratamento da Covid 19. “Todo esse contexto de pandemia que estamos vivenciando, cria na realidade uma porta de vulnerabilidade que faz com que as pessoas passem a circular notícias sem sequer ter a certeza de que esses dados são incorretos.  Por outro lado nós temos também as pessoas que criam essas notícias falsas com o intuito de ganhar visibilidade nas redes sociais. O  que se percebe é que com a pandemia também há uma intensificação da espetacularização da dor. As pessoas procuram saber notícias: quem veio a falecer? Faleceu de quê, foi de Covid? É uma aproximação dessa dor mas no sentido de tornar um espetáculo.  Então é preciso nesse momento que a gente tenha total noção do impacto negativo essas fake news tem na vida de pessoas que neste momento em que famílias estão sofrendo por ter um ente querido  no tratamento da Covid ou que já vieram a perder alguém pela doença”.

Millena Faustino finaliza dizendo que neste  momento tão difícil como este que estamos vivenciando é necessário que a gente exercite diariamente o nosso lado mais humano e que se possa compreender que os nossos atos influenciam diretamente na vida do outro. “A busca por likes e curtidas no facebook ou aumento de mensagens no whatsapp não pode ser maior do que a nossa compreensão em relação a dor do outro. Por outro lado é imprescindível que a gente esteja sempre atento às informações que nos chegam é que a gente tenha certeza que aquela informação é verídica, para então compartilhar, pois uma vez compartilhada é muito difícil, é muito trabalhoso desfazer essas notícias falsas, que às vezes causam impacto gigantesco que chega a ser irreversível. Precisamos redobrar nosso cuidado diante de um contexto como esse de pandemia em que a dor já bate nossa porta a todo momento. É preciso que estejamos atentos para que as informações que a gente compartilhe sejam realmente corretas”, finaliza a psicóloga.

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