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Crônica

O retrato

Crônica de Carlos Rubem

02/05/2021 16h31Atualizado há 1 semana
Por: Lameck Valentim

Por Carlos Rubem

Década de sessenta. Era menino. Sentado num antigo sofá na “Casa das Moças”, em Oeiras, observando a ambiência local, indaguei a minha tia-avó Quinquina, quem era aquele homem do quadro da parede.

– É meu irmão

– Como é o nome dele?

– Doutor Benedito. Morreu há muitos anos. Ainda moço.

– Ele era padre?

– Não. Isto é uma roupa de formatura. Era poeta.

– Morreu de quê?

– De uma doença horrível...

– Qual?

– Eita menino curioso!

Foram estas a primeiras informações que tive a respeito de Benedito Francisco Nogueira Tapety. Desde então passei a admirá-lo. Mais crescido, outros dados fui colhendo, obviamente. Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife, em 1911. Promotor Público. Professor do Liceu Piauiense. Delegado Geral de Teresina. Assessor do Governador Miguel Rosa. Faleceu aos 27 anos, vítima de tuberculose.

Ao ensejo do centenário de nascimento do “Mulato Genial”, em 1990, foi lançado o livro “Arte e Tormento”, sua obra póstuma por mim editada em parceria com o Ferrer Freitas.

Para tanto, fiz minuciosa pesquisa sobre a fundação da União Artística Operária Oeiras em sua rica documentação. Consta da ata inaugural, datada do dia 25.12.1938, após o discurso do Cônego Cardoso, levantou-se o Dr. João Carvalho que disse que fora Nogueira Tapety “...quem primeiro teve a ideia da organização de uma sociedade de artistas nesta terra...”. Depois de outras considerações, em homenagem à memória de Nogueira Tapety, propôs aos presentes que se conservassem em silêncio e de pé, por um minuto.

Por ter sido Nogueira Tapety o pioneiro do movimento classista em Oeiras, a União Artística, em 1950, providenciou uma duplicata da aludida fotografia para expô-la no seu Salão Nobre. Por esta época, quem presidia tal entidade era Raimundo Nonato Rêgo, o conhecido Raimundinho de Zezinha.

Muito bem relacionado no meio social, Raimundinho de Zefinha endereçou uma carta ao conterrâneo Dr. Petrarca Sá, Engenheiro Civil, então radicado no Rio de Janeiro, tendo sido portador da mesma o Sr. Clóvis Freitas, solicitando a ampliação do retrato em apreço.

Estas informações me chegaram ao ler, hoje (01.05.2021 – Dia do Trabalho), a carta-resposta daquela missiva, a qual encontrei no meu escritório particular entre velhos jornais. Teria eu surrupiado mencionada correspondência dos arquivos da União Artística?

Vale ressaltar o seguinte trecho: “Quero lembrar ao amigo, que o orçamento em apreço [Cr$ 1.200,00, incluindo boa moldura] foi feito pelo Halfeld, um dos melhores profissionais do Rio e meu amigo particular, desde Ouro Preto. Quanto ao trabalho, posso garantir-lhe, será executado por mão de Mestre”.

Magnânimo gesto de gratidão da União Artística!

 

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