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Suassuna: “inteligência e fanatismo não moram na mesma casa”

O grande poeta brasileiro Mário Quintana disse certa vez que os livros não mudam o mundo, “quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas".

11/05/2021 08h58Atualizado há 1 mês
Por: Lameck Valentim
Fonte: Mundo Cidadão/José Osmando de Araújo- Meio Norte

Por José Osmando de Araújo 

 

O grande poeta brasileiro Mário Quintana disse certa vez que  os livros não mudam o mundo, “quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.” 

Penso, assim, tocado por Quintana, que os livros têm realmente esse poder mágico de mudar a gente e, mudando-nos, serem capazes de mudar as coisas no entorno dos que se enriquecem com sua leitura. 

Os livros são, portanto- além de um deleite formidável para a alma e a mente humanas-, fortes instrumentos de transformação, de mudança, da quebra de tabus, da superação de barreiras, da derrubada de preconceitos. Em muitos momentos, chegam mesmo a ser revolucionários, portadores de ideias e ideais suficientes a colocar a coragem em movimento contra a truculência e o silenciamento de liberdades. 

Contudo, ao tempo em que são libertadores, os livros também inspiram no sentido inverso, motivando a ira de tiranos e fanáticos, que os vêem como ameaça, como um risco aos seus instintos e a seus planos. Daí, a história humana está repleta de histórias de violência contra os livros. 

Desde os tempos medievais, passando pela Alemanha nazista de Hitler e chegando aos tempos atuais, bibliotecas inteiras foram jogadas no fogo, praças públicas viraram fogueira para queimar obras valiosas cujos conteúdos desagradavam ditadores. 

Exemplo funesto desse ódio doentio foi dado há 88 anos, num exato 10 de Maio, quando o sanguinário Adolf Hitler, no auge de sua trajetória pública assassina, mandou queimar em praças públicas de Berlim e outras cidades alemãs, milhares de livros que tinham conteúdos fora das linhas de sua cartilha. 

Essa força revolucionária do livro pode ser vista com bastante intensidade em 1984, do escritor George Orwell, publicado originalmente em 1949, servindo até hoje como uma espécie de premonição, uma distopia que atravessa fronteiras e continua servindo como uma ferramenta de reflexão sobre os excessos do poder dominante em uma sociedade, quer no plano político, quer no terreno econômico. Aliás, tudo que temos visto em tempos de hoje. 

Pois bem.  

Por sua imensa capacidade de influenciar os povos contra governos opressores, 1984 sofreu grande perseguição, sendo logo proibido nos Estados Unidos, em pena Guerra Fria, pois foi considerado como uma obra a favor da ideologia comunista. 

No Brasil, por essa visão distorcida sobre a difusão da literatura, a obra de George Orwell foi censurada em dois períodos: durante o Estado Novo, no qual Getúlio Vargas era presidente, e durante os anos da Ditadura Militar.  

Muito mais recentemente, em fevereiro de 2020, aqui mesmo no Brasil, assistimos a algumas manifestações de ignorância, fanatismo e ódio contra o livro. O primeiro caso aconteceu em Rondônia, quando o governador do Estado (um coronel da Polícia) ordenou a proibição nas escolas públicas de 43 livros utilizados tradicionalmente na introdução à literatura, dentre eles "Macunaíma", de Mário de Andrade, “Os Sertões", de Euclides da Cunha, e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. A Secretaria Estadual de Educação justificou a proibição: “as publicações possuem conteúdos inadequados às crianças e adolescentes”. 

Outro caso, também de 2020, exibiu dois vídeos na internet e suas redes sociais, em que pessoas apareciam queimando obras do autor Paulo Coelho, em reação ao posicionamento político do escritor, contrário ao presidente da República. A ação desses exibicionistas do ódio gerou manifestação indignada da Academia Brasileira de Letras. 

A propósito desse fanatismo odioso contra o livro, que leva obras valiosas à censura e ao fogo, a professora Marisa Midori, historiadora e professora de editoração no curso de Comunicação da USP, afirma que pre a queima de livros é um assunto inesgotável e sempre será, além de abordar, colocado em grau de permanente vigilância entre os povos civilizados. 

Ela afirma, e nisso concordo plenamente, que “queimar livros não é simplesmente uma ofensa, tampouco um ato de censura ou só isto. Embora a censura possa se apresentar como um ato bem mais grave do que a ofensa a um indivíduo. Ela é uma ofensa e algo mais. Queimar livros é muito mais do que maldizer a leitura, embora este tipo de ofensa tenha ocorrido no Brasil não faz muito tempo. Queimar livros é um gesto inominável, é uma violência extrema. Queimar livros é uma dupla violência, ela é física e simbólica. Por esse motivo, as queimas de livros constituem capítulos marcantes e dolorosos na história da humanidade”, 

Muito provavelmente, apesar de sabermos disso, será difícil deixar de prever que a selvageria de uns tantos ainda se exibirá em algum lugar do planeta, pois fanáticos e ditadores sempre existirão, reforçando a advertência desse nosso símbolo do saber, Ariano Suassuna, quando disse: “ Inteligência e fanatismo nunca moraram na mesma casa.”

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