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Crônica

A árvore da vida

Por Carlos Rubem

05/06/2021 18h44Atualizado há 2 semanas
Por: Lameck Valentim

Por Carlos Rubem

O maior comprador, por várias décadas, do pó de carnaúba, na região de Oeiras, foi o Sr. Mário Freitas. Extração agrícola beneficiada no Armazém Bela Aurora, de sua propriedade. Menino curioso, vez outra, gostava de ver o seu processamento industrial.

Sei que havia umas grandes prensas de madeira, enorme fornalha com seus tachos de bronze onde era derretido tal produto.

Em seguida, a cera quente era colocada em inúmeros flandres. Uma vez fiz uma experiência desastrosa: queimei meu dedo indicador direito. Foi um vexame!

Seca, era quebrada em pedaços. Ensacada, era transportada, no caminhão de Abdias Viana, para Fortaleza, e exportada, posteriormente.

Homens fortes se dedicavam a esta estafante labuta, a exemplo de João Pequeno, Luís Preto, Antônio Grande, David da Várzea e tantos outros sob a gerência do Sr. Geraldo Martins.

Assaltam-me estas lembranças após a leitura do livro “Carnaúba — uma riqueza do Piauí”, de autoria do jornalista Zózimo Tavares. Obra bilíngue ilustrada com belíssimas fotografias. Foi lançada virtualmente contando com a honrosa participação do Presidente do Conselho Estadual de Cultura, Nelson Neri Costa e de Wellington Dias, Governador do Piauí.

A vistosa publicação traz todas as mais diversas informações acerca desta árvore que bem simboliza a nossa identidade cultural. Repositório de saberes. É lugar comum dizer que da carnaubeira tudo se aproveita.

Sempre me compraz descortinar um denso carnaubal. O farfalhar de suas irisantes folhas é de uma beleza indescritível.

Na fazenda Golfos, que pertenceu ao meu pai, Ditinho Reis, há uma piscosa lagoa onde aprendi a nadar. Ao seu derredor, a aludida planta se espraiava. Na minha infância, colhia talos de carnaúba para fabricar meus cavalos de pau com todos seus  apetrechos.

Como dito, se um carnaubal enche os meus olhos, tenho afeto especial por uma única carnaubeira. É aquela que se destaca, hoje, de forma isolada e altaneira, na Praça da Bandeira, na Primeira Capital piauiense. A cidade inteira lhe rende homenagem. Lugar de memória.

Antigamente, estava fincada no pátio interno da ampla e extinta Cadeia Velha construída, em 1839, pelo Presidente da Província Manoel de Sousa Martins - o Visconde da Parnaíba. Projeto arquitetônico do engenheiro alemão Pedro Cronemberg, patriarca dessa família espalhada no Piauí afora. Testemunhou os horrores sofridos pelos segregados que povoaram as masmorras daquele equipamento público.

Nos anos quarenta, o então prefeito José Tapety recebeu em visita o poeta Severiano da Costa Andrade, natural de Simplício Mendes, donde foi mandatário.

Provocado pelo anfitrião, Da Costa Andrade compôs o belo poema intitulado “A Carnaubeira da Praça de Oeiras” (sic), o qual, momentaneamente, não o localizo nos meus arquivos implacáveis.

A carnaubeira em apreço também é testemunha de muitos outros fatos históricos, religiosos, políticos, sociais havido naquele aconchegante espaço urbano.

Namorei muito sob a vigilância dessa solitária carnaubeira. Cala-te boca!...

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